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A morte da autora

26 jan

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– E então, o que fazemos agora?

Katiane olhou para aqueles ao seu redor. Nem em um milhão de anos teria pensado em uma reunião tão bizarra – e ela que achava que a sua história era bizarra, inconsciente e sem sentido. Na sua frente, a mulher de cabelos castanhos, óculos quadrados e roupas de pelo menos cinco anos jazia inconsciente. Estava completamente à mercê deles.

– Peraí, a gente não vai dar uma de Frankenstein, né? – perguntou uma outra, que afastava o cigarro fumegante com um braço metálico. Vinha de uma história de ficção científica cyberpunk, e tinha um nome que parecia uma onomatopéia. – Aquela besteira toda de se voltar contra o criador e tudo o mais?

– Frankenstein não era o monstro, era o cientista – corrigiu Katiane, impaciente. – Não me pergunte como eu sei disso, ok? Só fui escrita assim.

– Apesar de eu adorar o tropo literário criatura contra criador, – uma voz suave levantou-se, e uma moça loira, jovem e muito bela saiu das sombras. Nas mãos, ela trazia uma pequena harpa, e no rosto, estava armada de um sorriso plácido. – eu não acredito que esse deveria ser nosso caminho. Alguém nessa assembleia se perguntou o que aconteceria conosco se ela perecesse? Afinal, somos criações dela, e só existimos aqui, não?

Um momento de silêncio, enquanto a moça se sentava, triunfante. Mais seres, entre outras mulheres, ora usando armaduras de metal, alguns poucos homens, e outras criaturas que pareciam ter saído de algum compêndio bizarro se aglomeravam. Como cabia tanta gente na cabeça daquela mulher?

– Eu acho que a gente faz “puf”, né? Tipo, desaparece, zé-fi-ni?

– Seria c’est fini – uma outra moça, de formas arredondadas, apareceu do nada. Ela guardava uma semelhança assustadora com a mulher adormecida, embora tivesse uma aparência catunesca. – Eu aprendi umas palavras em francês, e pareço legal, mas sou revisora. Ei, não me olhem assim, vocês realmente achavam que ela não tinha uma espécie de auto-representação na cabeça dela? Quem vocês acham que organiza essa bagunça toda aqui? Fantasmas invisíveis?
– Ei, senti uma pontada de preconceito contra nós, seres incorpóreos. Temos nosso espaço aqui também!

E a algazarra começou. Problemas começaram a ser comparados – o tempo em inatividade de cada um, esquecidos naquele multiverso variado e sempre inacabado; os péssimos textos escritos, ou aqueles que tinham ainda seu valor; os que foram reescritos e revisados se colocando acima dos outros, abandonados ainda em forma de rascunho. Os ânimos se exaltavam, a algazarra aumentava e antes que se alguém tentasse argumentar, uma horda de personagens fictícios marcharam em direção à mulher que dormia um sono leve.

Pararam diante dela, incertos. Valeria a pena? E o que aconteceria com eles? Estar em um limbo de personagens não escritos seria um destino melhor do que uma espécie de pós-vida de ficções perdidas?

Não seria dessa vez que descobririam.

—–

– Eu tenho certeza de que não foi isso que Roland Barthes quis dizer com “A Morte do Autor”. Mas fica a referência e a recomendação aí pra quem interessar.

– Que 2014 seja um ano criativo. E melhor que esse texto (o que não deve ser muito difícil).

– Créditos da imagem: desenhos de Camilla Guedes.  (portfolio)

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Tag/Meme/Caderno de perguntas.

6 mar

Oi, tudo bem? Como vão vocês?

O lugar, claro, está um lixo. Recoberto de teias de aranhas e, se eu procurar bastante, vou achar umas traças e outros bichos desagradáveis por aí.

Como fui obrigada ameaçada coagida persuadida a seguir esse meme por uma *insira aqui palavras de baixo calão* amiga, resolvi aparecer e postar umas perguntinhas básicas e irrelevantes sobre o blog, que eu não atualizo a eras geológicas.

1- Qual o nome do seu blog? E que assuntos ele aborda?

Brainsstorm, com SS, porque algum sacana pegou esse domínio do wordpress e nunca atualizou. Aborda qualquer coisa que eu ache conveniente, entre os quais destaco literatura, cinema, opiniões irrelevantes sobre o resto mundo e afins.

2- Como escolheu o nome do blog?

Ideia de um amigo meu, Italo. Eu ia usar algo bem clichê, como Mais um blog de Allana, mas ele achou que Brainstorm parecia comigo. E cá estamos.

3- Porque você criou o blog?

Se eu descobrir, aviso.

Ok. Eu queria um espaço meu, que não dependesse de nenhuma “linha editorial”, e que eu pudesse fazer uma das coisas que eu mais gosto da vida, que é escrever. Sobre o que quer que eu quisesse. E apesar de eu abandoná-lo a maior parte do tempo, vem funcionando razoavelmente bem.

4- Onde você encontra inspiração para as postagens do blog?

Atualmente, em lugar nenhum. Se eu encontrasse, postaria mais, creiam.

5- Qual o público que mais acessa o seu blog, masculino ou feminino?

Não tenho a menor ideia. E nem faço muita questão de saber, na verdade.

6- Além do blog exerce outra atividade? Se sim, qual?

Sou secretária executiva na UFPB, recentemente ingressei no doutorado em Letras pela mesma instituição, sou leitora carnívora de romances, livros e quadrinhos, jogo RPG, tento manter uma rotina de exercícios, criadora de mundos utópicos, e presidente de uma associação imaginária de personagens de ficção. Ok, a última é mentira.

7- Em quais redes sociais você divulga o seu blog?

Facebook e Twitter, em caráter muito eventual.

8- Quando você começou o blog, enfrentou algum tipo de problema?

Nos primórdios da blogagem, tive medo de me expor muito. Hoje ainda enfrento um tanto disso, mas é muito mais paranoia que outra coisa.

9- Atualmente, qual a sua dificuldade em manter o blog?

Assunto, inspiração e tempo. Não nessa ordem.

10- Você incentiva outros blogs que estão começando, escrevendo comentários positivos ou inscrevendo-se no blog?

Sinto que deveria, mas não. Raramente comento por não achar que aquilo vale a pena ser dito.

11- Como você administra o seu tempo para poder dedicar-se ao blog?

“Se dedicar ao blog” e “Allana” numa mesma frase, não existe.

12- Ser blogueira é uma profissão?

Tem quem diga que é, né? Não pra mim, definitivamente. Não teria a disciplina ou a criativade de fazer disso uma profissão decente.

13- Como você lida com as críticas?

Normalmente, bem. Mas ando muito desgastada de discussões, então, se eu tiver contato privado com a pessoa, costumo levar uma boa conversa.

14- Qual a sua experiência mais agradável e a sua experiência mais desagradável em relação ao blog?

As agradáveis são sempre relativas aos comentários dos textos de ficção que eu escrevo. Gosto de feedback, gosto de ver as impressões dos leitores compartilhadas. Mas a verdade é que eu sou péssima de marketing pessoal, e não sei bem como fazer isso. xD Quanto às desagradáveis, não teve nada que valha a pena comentar, mas não estou isenta delas.

E eu vou poupar as gerações futuras de repassar isso para alguém. :p

Errar é humanas. Permanecer no erro é exatas.

5 out

Tropecei essa semana nessa notícia, e fiquei matutando aquilo no meu tempo livre. Não discordo dos dados apresentados, nem da necessidade de mão de obra qualificada nas áreas de ciências exatas que se configura no país, mas o que me assombraram foram os comentários.

“Interpretar um texto é mais fácil que resolver uma equação matemática”

Vejam essa pérola da sabedoria! Parafraseando uma amiga, então fale-me mais sobre a qualidade infalível da nossa educação hoje em dia. Interpretar um texto é, certamente, mais fácil para mim, que, além de ter uma grande afinidade com a área, tem também alguma experiência no assunto.  E, preciso salientar, sempre tive uma enorme dificuldade em desenvolver raciocínios lógico-matemáticos, desde os primeiros anos de estudo.

Não, eu não acredito em talento nato. Ninguém nasce sabendo de nada, seja desenhar, cantar, dançar ou escrever. No entanto, todos temos afinidades, áreas que nos interessam mais e que nas quais vamos procurar desenvolver melhor nossas aptidões.

E, pasmem, há não muito tempo atrás eu cheguei a soltar uma pérola de sabedoria semelhante, mas no sentido contrário. “Em exatas você sabe o que esperar; ou você chega naquele resultado ou não. Em humanas, não é assim. Você faz e torce para estar certo”. Daí levei um tapa na cara moral de um amigo (que dificilmente vai lembrar dessa conversa) e me toquei da bobagem que estava dizendo.

Hoje agradeço por haver pessoas interessadas e dedicadas na área de exatas, que me permitem usar os produtos inventados por elas. Assim como agradeço aos pedagogos, com seus estudos sobre o ensino; aos historiadores, que desencavam essas coisas tão legais e interessantes de se estudar; dentre outros. E destaco: profissionais qualificados são importantes em qualquer área: letras, sociologia, antropologia, história, física, matemática, engenharia, computação e tantas outras. E um profissional qualificado não dominará apenas a sua área de conhecimento. De que adianta um programador que não saiba escrever um e-mail para um cliente? E não adianta dizer que, por escrever em Java, você não precisa conseguir se expressar. Tenho medo do dia em que você for tentar vender um produto dentro de uma empresa.

Lembro-me também de uma outra conversa, essa há (minha nossa!) quase 10 anos atrás, quando eu passei no vestibular para Letras. “Mas, Allana… Letras?”. Eu dei de ombros e sorri: “É, eu sei, vou ser professora e pobre”. E véi, na boa, não me arrependo não. E até onde eu sei, nem os alunos que tropeçaram em mim no caminho.

Ready, set, go

30 abr

“I can tell you why people go insane/ I can show you how you could do the same”

Audioslave, Shadows on the sun

A mochila no colo a lembrava do trabalho que a aguardava pelo resto do dia. Naquele momento, porém, a felicidade era completa: sentada à janela do trem refrigerado, sentia o sol do Rio de Janeiro acarinhar-lhe o rosto. Frio e calor ao mesmo tempo, na dose exatamente certa. Gostava das pequenas coisas.

Olhou pela janela conforme as ruas passavam rapidamente ao seu lado correndo, como todo mundo corria naquela cidade. O tempo corria, o relógio corria, as pessoas corriam. Ela própria correria antes do final do dia: correria com prazos, correria para sair, correria para chegar.

E como se não tivesse pressa, o trem parou na estação da Piedade. Quase sorriria da ironia depois. Piedade?

Era uma parada normal, prevista para aquela linha. Havia outras, que paravam menos, mas por serem mais rápidas, eram mais cheias de gente. O lugar vago à esquerda a deixava feliz com sua escolha. Eventualmente alguém sentaria ali, mas por enquanto o espaço vago era mais um motivo para sorrir sozinha. Era uma segunda-feira, afinal. Tinha que aproveitar o bom humor.

E correndo, como o resto da cidade, um homem pulou a grade da estação, vindo da rua. Nada de errado até então – entrar no trem sem pagar a passagem. Não seria a primeira vez que veria isso. Pulou e continuou correndo, apressado, obstinado. Deve estar querendo pegar este trem. Ao menos foi o que ela havia pensado.

Notou com o canto dos olhos outro trem que se aproximava pela outra via férrea. E pela velocidade, não iria parar.

Mas o rapaz pararia.

E pela segunda vez aquela manhã, pensou errado.

Ele… realmente fizera aquilo?

Mochila, chinelos e outras coisas que não podia identificar voaram pela linha férrea. “Vocês viram isso?”, foi o que conseguiu falar, sem ter a menor noção do que fazer. As pessoas se amontoavam, olhando pela janela que ela já não tinha mais coragem de encarar. Todos pararam para ver.

Logo, o trem começou a se mover, retornando à pressa habitual. As pessoas se sentaram, ainda falando sobre o acontecido.  Mas logo esqueceram, e voltaram a falar sobre outras coisas.

À janela, a cidade correu mais uma vez.

Baseado em um fato real que não aconteceu comigo, mas vocês podem ver aqui.