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A Caçadora

20 out

Essa foi a minha resposta a um pedido feito para um jogo de RPG, no cenário de Golarion, da Pathfinder (embora usando as regras do D&D 5ª edição). Tínhamos que pensar um desafio a ser superado por nossos personagens. Aproveitei para explicar narrativamente algumas características da raça da minha personagem – uma androide – e traços de personalidade descritos em ficha.

Créditos da imagem: DevBurmak

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Já era o terceiro dia enclausurados, e o vento continuava uivando lá fora. Do lado de dentro do abrigo improvisado, as coisas não iam muito bem. A chama da fogueira minguava, produzindo mais fumaça do que calor. Val, a menina mirrada e esquálida, finalmente dormia com uma respiração difícil depois de uma noite difícil. No inverno, a saúde fragilizada dela sempre piorava. Quando estavam em uma casa calefada, porém, podiam manter cuidados apropriados. Ali, ela tinha sorte de estar dormindo em um lugar seco.

Cibylla analisava a situação e os prospectos não eram bons. O mau tempo repentino pegou os três de surpresa, que pretendiam chegar a Tocha antes do inverno começar. Os suprimentos começavam a rarear, e se não conseguissem chegar em alguns dias, havia riscos de os três minguarem de fome. Passou pela sua cabeça a mórbida curiosidade da desnutrição. Como ela se sentiria se estivesse às portas da desativação por falta de nutrientes?

Lembrou-se das vezes em que foi desligada e estremeceu. Não, não deveria ser algo que merecesse sua atenção. Se muito, que servisse como o estímulo final para enfrentar o frio. O homem que agora respondia por Konir Baine olhava pela entrada da gruta. Cansaço nos olhos e no corpo, e algo mais que ela não conseguia entender. Algo que pesava nos ombros do homem, deixava-os encurvados, como nos tempos de antes, quando ambos respondiam à Liga Técnica de Numeria. Cibylla ainda não tinha uma palavra para aquele sentimento que via.

— Nossos suprimentos não vão durar mais do que dois dias – a mulher falou em seu tom invariável de voz.

— Eu ainda sei contar, Cibyl.

O apelido. Usado em raros momentos de intimidade entre os três, ou quando ele queria ser condescendente. Normalmente acontecia quando ele começava a ficar impaciente. Konir Baine estava descontente, embora a sutileza da mensagem não tenha atingido Cibylla como ele pretendia.

— Não insinuei que você tivesse perdido suas faculdades intelectuais, Konir. Era apenas uma análise factual, para concluir que eu sairei para caçar.

— Eu não quis… – desistindo de se explicar, ele apenas sorriu sem forças. Ainda esquecia que Cibylla não conseguia captar todas as nuances de tom, as particularidades do discurso humano. Ela só estava lidando com a situação na maneira que conhecia. – Mas como você pretende caçar alguma coisa nesse frio? Você faz alguma ideia do que fazer lá fora?

— Não. Mas entre nós três, tenho matematicamente mais chances de sucesso. Uma vez que a neve parou de cair, julgo que não devo me perder tão facilmente. Voltarei no fim do dia, com ou sem comida. Fique atento.

O estudioso não tinha argumentos para refutá-la. Apenas deu ombros, despediu-se com um redundante “tome cuidado” e viu a forma humaoide, alta e esbelta, de pele tão pálida quanto a neve e cabelos vermelho-vivo partir para o vento frio e cortante. Ele já sentiu medo várias vezes em sua vida, especialmente desde que deixara a Liga Técnica, mas sempre teve a sensação de que havia alguma coisa sob seu controle. Mas diante de um destino incerto, o horizonte se preenchendo de branco, um frio castigante e da comida no fim, ele passava a questionar as suas chances.

*****

Cibylla seguiu, afastando-se da gruta e rumando em direção a uns bosques que haviam encontrado no dia em que se abrigaram. Os pinheiros, que reconheceu pelo seu formato característico, e outras árvores de folhagem sempre verde estavam cobertos de neve. O sol brilhava timidamente, e ao tempo em que ela apreciava o fato de não ter que enfrentar o granizo caindo sobre sua cabeça e suas costas, a neve sob suas botas começava a derreter. Aparentemente três dias de nevasca não são o bastante para ela se tornar firme e não ceder sob seu peso.

Com olhos opacos, ela olhava ao redor. Atenta, ela procurava por algo, embora não soubesse exatamente o quê. Recostou-se em um tronco derrubado pelo vento forte, as raízes viradas para o céu como vários braços que tentaram se agarrar a um desfiladeiro, e sem saber exatamente como, soube que aquela árvore teria uma boa lenha para a fogueira. Passou as mãos cobertas por luvas pelos galhos secos e sem folhas – ela já estava morta antes que a ventania desse seu último golpe. Desde que cortasse apenas os galhos que não dormiram no gelo, poderia aproveitá-los.

Aparando a madeira de maneira diligente, outros pensamentos ocorreram a Cybilla. Alguma daquelas árvores teriam frutos secos, que poderiam ser assados e comidos durante a viagem sem esforço. Se uma vegetação tão frondosa havia se formado ali, poderia dar a sorte de encontrar tocas de alguns animais pequenos, embora seus rastros fossem mais complicados de encontrar, pois eles deveriam estar abrigados do frio. Se não encontrasse os refúgios, sabia como preparar algumas pequenas armadilhas. Assim, ela, Konir e Val poderiam passar mais um dia, aquecidos e alimentados de vegetais, e depois ela coletar alguma carne para a viagem.

A androide não sabia como aquelas coisas lhe chegaram à mente, mas quando terminou com a madeira, amarrou-a em um lugar alto o bastante para que não ficasse úmida no chão. Com uma postura que não era exatamente a sua, mas lhe veio de modo natural, Cibylla andou pelos caminhos emaranhados do bosque. Havia memorizado a direção do sol, e fez questão de deixar marcas de sua passagem nos galhos de árvore mais baixos. Instintivamente, evitou as copas mais pesadas, pois já que a neve começava a derreter, não queria ser surpreendida por pedaços de gelo caindo em sua cabeça. Até que ela encontrou rastros, quase como se refazendo seus passos, e não eram de pequenos animais.

Calçados. Botas um pouco maior do que as suas e recentes. Quem estaria andando tão longe de qualquer habitação em um inverno? Um caçador que, como eles, foi pego de surpresa pela neve? Mas quem iria tão longe de qualquer povoado para caçar? A não ser que essa pessoa tivesse alvos muito específicos em vista.

Há algumas semanas, os três fugiram às pressas de Chesed, onde nos últimos meses viveram uma vida relativamente tranquila. Na maior cidade de Numeria, os três conseguiram passar razoavelmente despercebidos. O Assistente Pauldris Grey cortou os cabelos, tingiu-os e virou Konir Baine; Val se passava por sua filha e aprendiz, e Cibylla, outrora Ajuda nº C-42, assumiu um novo nome. Quando se preparavam para passar seu segundo inverno na cidade, os cartazes de procurado começaram a aparecer, oferecendo recompensas absurdas em troca da captura de Konir/Pauldris, ou de provas de sua morte. Nenhuma das perspectivas a animava. Eles não tiveram escolha que não fugir às pressas.

Seguiram o Rio Selen com uma caravana de pessoas que não faziam muitas perguntas, desde que nenhum deles se provasse um fardo. Eram também pessoas animadas, sempre dispostas a contarem histórias, pertencentes a eles ou não. Esperavam que a velocidade de sua fuga tivesse espantado quaisquer caçadores de recompensas, mas aquelas evidências provavam o contrário. Alguém muito determinado estava bem próximo de encontrá-los, e Cibylla não permitiria aquilo.

Com cuidado, ela levantou o capuz e seguiu os rastros. Evitando fazer barulho, calculou bem seus próprios passos, pois qualquer movimento em falso poderia entregar sua posição. Não soube precisar o tempo que caminhou pela vegetação, mas não importava.

Seus movimentos eram calculados, quase tão frios quanto o vendo forte que balançava a folhagem. Se a postura cuidadosa no início da caminhada lhe parecia estranha, agora tudo lhe era natural. Como um livro antigo, encontrado em meio a uma estante empoeirada, que você começa a ler apenas para lembrar que conhecia a história de muito tempo atrás. Quando?

Chegou ao acampamento. Alojada contra a encosta da margem de um córrego, uma tenda de couro grosso. Restos de uma fogueira, protegidos da neve com um círculo de pedras. Do outro lado da corrente de água, um cavalo não a notara, distraído com uma porção de comida. Nenhum outro barulho além do vento, da água, e do ocasional relinchar do animal. Quem quer que fosse aquela pessoa, não estava em casa. Isso deu a Cibylla a oportunidade de confirmar suas suspeitas.

Primeiro, afastou o animal, para que ele não entregasse sua posição. Uma sela de boa qualidade, arreios hidratados e bem cuidados. Era alguém experiente. O quadrúpede, porém, estava cansado e arfava pesadamente, e não ofereceu resistência quando foi guiado um pouco mais para longe, onde haveria mais comida.  Na tenda, encontrou alguns suprimentos que lhe seriam úteis, e a prova que estava esperando: cartazes com o rosto de Pauldris Grey estampado. Cibylla não deixou de se espantar com a diferença entre as duas pessoas. Olhos encavados, com grandes olheiras, e uma barba desgrenhada. Ele já fora tão velho assim? Teria ela mudado tanto também?

Seu primeiro pensamento foi o de pegar os suprimentos que pudesse e fugir, talvez até o com animal. Mas não, isso seria um erro. Cibylla não sabia montar, e deixaria um rastro muito fácil de seguir. Acabaria entregando a posição de todos, possibilitando que aquele indivíduo os surpreendesse quando estivessem vulneráveis. Ela iria preparar uma armadilha.

*****

No alto de uma árvore, ela resetava o arco com cuidado. A figura seguiu os passos do cavalo, como Cibylla esperava. À pouca distância, pôde analisar melhor o seu alvo. Altura mediana, passadas cuidadosas, compleição física acima da média. Uma barba espessa cobria-lhe o rosto, mas uma cicatriz profunda descia-lhe pela face esquerda, ficando oculta por um tapa-olho. Ele andava com a experiência de anos de ofício, e pelas armas que carregava, a androide sabia que um embate direto seria arriscado.

Prendendo a respiração, esperou que ele se aproximasse mais do animal. Torcia que seus rastros estivessem bem cobertos, e mais importante, que ele não percebesse a corda tesa, oculta por folhagens e galhos secos que ela retirou às pressas das árvores. Contou cada passo, um após o outro, devagar… e a corda se rompeu.

Antes que pudesse entender o que estava acontecendo, o caçador ouviu um estalar de madeira alto, um zumbido de flecha e uma montanha branca de gelo e neve caiu sobre ele. O homem ainda tentou rolar no chão, mas não conseguiu reagir a tempo e ficou soterrado. Cibylla pulou para o chão, sabendo que não tinha o tempo a seu favor, e foi tentar amarrá-lo.

Por muito pouco conseguiu evitar o pior do golpe de um machado na direção da sua perna. Sentiu a lâmina atravessar o couro da bota e chegar à pele, tingindo a neve de vermelho. Não era estranha à dor, mas o ardor do ferimento a colocou em ressalva. Com um golpe preciso do sabre cortou o pulso do caçador, que gritou de dor e quase se engasgou com a neve que lhe entrara pela boca.

A refrega foi rápida. Caído e soterrado, o caçador era um alvo vulnerável. Mas não foi sem esforço que Cibylla o amarrou à árvore. Aproveitando-se do seu tamanho, ele resistia e bufava, e só depois de um golpe bem aplicado entre as pernas ele se limitou a gemer.

— Devo supor que você veio até tão longe pela recompensa, não é?

— Sua puta barata, eu vou acabar com você!

— Você não quer perder o outro olho, quer? — ela se abaixou, encarando o homem. Na mão direita, o sabre ameaçava o pescoço do homenzarrão. Na esquerda, a lâmina da adaga roçava próxima da orelha. Aquela não era a sua voz, o seu tom monocórdico. Era ameaçador, carregado de malícia e frieza. — Ou posso arrancar as falanges dos seus dedos. Com sorte, o gelo e o frio vão estancar seu sangramento, e você poderá fugir. Mas não acho que o resto de sua vida vai ser bem mais difícil…

O homem respondeu com o silêncio, desafiando-a. Uma ameaça não realizada seria vazia e ineficiente, e ela não hesitou. Com uma precisão que ela não sabia possuir, cravou a lâmina menor na parte interna do dedo indicador do sujeito, que berrou de dor e raiva, e depois, gemeu de resignação.

— Há outros… Atrás de vocês. Do mago e da menina. Você é um bônus. Seu… Mestre, Gartoni…

— Eu não tenho mais mestres. E você, homem caolho de nove dedos, vai nos deixar em paz. E vai dar o recado para os outros. Nós não vamos nos curvar à Liga. Está claro?

Depois de alguns segundos, o homem assentiu. A mulher sorriu, um sorriso calculado e cruel. Com o cabo da adaga, desferiu um golpe forte na cabeça do homem, que tombou inconsciente. Sem pressa, embalou os suprimentos, a tenda, e não esqueceu o cavalo, uma ajuda muito bem vinda pelo resto da viagem.

Quando deu por si, guiava o cavalo pelos arreios, com a tenda e os suprimentos amarrados. Ela não sabia explicar o que tinha acontecido, como por alguns momentos ela parecia estar assistindo às suas próprias ações. Seria como um sonho?

Não soube explicar. Quando Konir perguntou onde ela tinha conseguido todas aquelas coisas, ela deu de ombros e disse que não se preocupasse. Ele não tocou no assunto de novo. E no dia seguinte, bem alimentados e aquecidos, seguiram viagem.

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