Tag Archives: Diabos

A Queda – Parte IV

26 jun

Parte 1: aqui.

Parte 2: aqui.

Parte 3: aqui.

A mulher tocou a barda no ombro, que sentiu a conhecida magia de teletransporte. Estava agora próxima às muralhas, mas isso não a preocupava agora. Reconheceu o irmão, com suas grandes e exuberantes asas felpudas e esbranquiçadas, lutando entre demônios que pareciam estar realizando um ataque à Necrópole de Kelemvor.

– Ele está em problemas. Vamos ajudá-lo.

Aila assentiu silenciosamente, e iniciou uma canção épica, que conhecia desde criança. Logo suas palavras soaram nos corações dos soldados de Kelemvor, e Alexander não tardou a reconhecer a irmã. Se não estivesse tão ocupado, teria se perguntado como ela teria chegado até ali. Com as esperanças renovadas, desferiu um ataque certeiro no seu oponente.

Se não conhecesse seu irmão, Aila poderia dizer que ele procedia dos planos celestiais: alto, forte e com cabelos loiros que desciam até os ombros. As linhas do rosto eram definidas, extremamente semelhantes às do pai, que sequer chegou a conhecer, e acompanhadas por olhos azuis límpidos e claros, capazes de enxergar o mal no coração das pessoas. Do alto das costas, surgiam duas asas felpudas e brancas, manifestação recente de sua herança celestial. Asas essas que acabavam de ser feridas por um raio de fogo concentrado, lançado dos olhos do construto com o qual combatia.

Era uma criatura bizarra, que possuía um corpo semelhante ao de uma aranha de órbitas vazias. Claramente artificial, se prostrava ameaçadora diante de Alexander, que, portando uma grande espada brilhante, desferiu dois ataques nas patas da criatura, mas que pouco pareceram afetá-la. A desconhecida de cabelos vermelhos bateu levemente as asas, elevando-se um pouco, e logo em seguida tensionou o arco,disparando duas flechas na direção do construto. Uma delas se crava no chão, enquanto a outra, com sua ponta flamejante, acerta o alvo.

Então um som semelhante a uma corneta soou ao longe, e a horda demoníaca entendeu aquilo como sinal de retirada. O construto, instruído para essas situações, desceu suas grandes pinças aracnídeas e prendeu Alexander, sem muita dificuldade, e logo iniciou sua caminhada. Aila então iniciou uma nova e breve canção, invocando um hipogrifo, vindo dos planos de Sune. Em celestial, num tom um tanto desesperado, ordenou que atacasse a criatura. Enquanto isso, a mulher realizou dois tiros certeiros, um deles entrando na órbita vazia do construto, que em seguida caiu inanimado no chão. A barda respirou aliviada, cancelando a magia e agradecendo à Senhora dos Cabelos de Fogo, enquanto seu irmão alçava vôo em direção à jovem.

– Aila, como… chegou até aqui? Como descobriu onde eu estava?
– Ela veio comigo, Alexander Ilindiel, paladino de Torm. – falou sem esperar a resposta da barda, e em um tom repentinamente frio. Tornando o olhar para a jovem, continuou: – Seja breve com suas despedidas.
– Despedidas…? Aila, do que este demônio está falando?
– De-demônio? – gaguejou a jovem, estarrecida.
– Ela virá comigo, paladino. – a voz firme e seca da erynies cortava os ouvidos de Alex. – Serão concedidos a ela os poderes para fazer a justiça que lhe foi negada.
– E você vem me falar de justiça, criatura infernal? Justamente você? – aumentou o tom de voz, e levou o olhar para a sua irmã – E você, onde estava com a cabeça quando ouviu as palavras dessa mulher? O que deu em você, Aila?
– Você não vê, Alex?! – gritou a barda – Eu não sabia de nada! E diferente de você, eu não posso discernir se há maldade no coração de alguém apenas olhando para ela! Além do mais… eu…
– Agora é tarde, paladino. Ela não poderá quebrar o Pacto que fez comigo. – falou a erynies – Ela terá as recompensas conforme o acordo: poderá fazer justiça a quem a matou, e será capaz de resolver os problemas terrenos pelos quais pereceu. Para tanto…
– Eu não acredito que você fez isso, Aila! – explodiu Alexander, desesperado. – Acha que essa é a verdadeira forma da justiça? Acha que é assim que se faz o bem, barganhando com demônios?!

A barda não conseguia sequer falar. Agora havia entendido tudo perfeitamente, tão claro como a água. Sentia as pernas tremerem e o coração acelerado, principalmente por saber que não haveria volta. Em um impulso, abraçou o irmão, enquanto se policiava para não chorar. Desatento a isso, ele correspondeu ao abraço, enquanto sussurrava:

– Eu não acredito, Aila. Minha irmã, como pôde? Como? Por quê?
– Então essas serão suas últimas palavras a sua irmã, Alexander Ilindiel?
– Eu tenho todo o direito de passar um sermão na minha irmã, demônio! Cale-se!
– É assim que você quer que ela se lembre de você?

Soltando-se do abraço do irmão, Aila levantou o rosto, encarando-o com o par de olhos violetas banhados em lágrimas.

– Eu também fiz isso por você, Alex.
– Venha, Aila. – chamou a erynies. – Quanto a você, paladino, espero não vê-lo nunca mais.
– O mesmo não posso dizer de você, demônio. E Aila, eu farei o que for necessário para trazer paz à sua alma.

A erynies segurou a barda pelo braço, desaparecendo logo em seguida. Ainda tentando digerir o que aconteceu, Alexander deixou-se cair sentado, sentindo o rosto ser aquecido por lágrimas furtivas, enquanto dizia:

– … nem que isso custe a minha vida.

Enquanto caminhava na direção de uma grande torre de brilho metálico, Aila sentiu novas lágrimas escorrerem pelo seu rosto. As últimas palavras que ouvira de Alex ainda ecoavam-lhe na mente:

“- Eu farei o que for necessário para trazer paz à sua alma.”

Em outras palavras, ele seria capaz de matá-la, se preciso fosse.

– Entre, Aila.

Anúncios