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A Caçadora

20 out

Essa foi a minha resposta a um pedido feito para um jogo de RPG, no cenário de Golarion, da Pathfinder (embora usando as regras do D&D 5ª edição). Tínhamos que pensar um desafio a ser superado por nossos personagens. Aproveitei para explicar narrativamente algumas características da raça da minha personagem – uma androide – e traços de personalidade descritos em ficha.

Créditos da imagem: DevBurmak

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Já era o terceiro dia enclausurados, e o vento continuava uivando lá fora. Do lado de dentro do abrigo improvisado, as coisas não iam muito bem. A chama da fogueira minguava, produzindo mais fumaça do que calor. Val, a menina mirrada e esquálida, finalmente dormia com uma respiração difícil depois de uma noite difícil. No inverno, a saúde fragilizada dela sempre piorava. Quando estavam em uma casa calefada, porém, podiam manter cuidados apropriados. Ali, ela tinha sorte de estar dormindo em um lugar seco.

Cibylla analisava a situação e os prospectos não eram bons. O mau tempo repentino pegou os três de surpresa, que pretendiam chegar a Tocha antes do inverno começar. Os suprimentos começavam a rarear, e se não conseguissem chegar em alguns dias, havia riscos de os três minguarem de fome. Passou pela sua cabeça a mórbida curiosidade da desnutrição. Como ela se sentiria se estivesse às portas da desativação por falta de nutrientes?

Lembrou-se das vezes em que foi desligada e estremeceu. Não, não deveria ser algo que merecesse sua atenção. Se muito, que servisse como o estímulo final para enfrentar o frio. O homem que agora respondia por Konir Baine olhava pela entrada da gruta. Cansaço nos olhos e no corpo, e algo mais que ela não conseguia entender. Algo que pesava nos ombros do homem, deixava-os encurvados, como nos tempos de antes, quando ambos respondiam à Liga Técnica de Numeria. Cibylla ainda não tinha uma palavra para aquele sentimento que via.

— Nossos suprimentos não vão durar mais do que dois dias – a mulher falou em seu tom invariável de voz.

— Eu ainda sei contar, Cibyl.

O apelido. Usado em raros momentos de intimidade entre os três, ou quando ele queria ser condescendente. Normalmente acontecia quando ele começava a ficar impaciente. Konir Baine estava descontente, embora a sutileza da mensagem não tenha atingido Cibylla como ele pretendia.

— Não insinuei que você tivesse perdido suas faculdades intelectuais, Konir. Era apenas uma análise factual, para concluir que eu sairei para caçar.

— Eu não quis… – desistindo de se explicar, ele apenas sorriu sem forças. Ainda esquecia que Cibylla não conseguia captar todas as nuances de tom, as particularidades do discurso humano. Ela só estava lidando com a situação na maneira que conhecia. – Mas como você pretende caçar alguma coisa nesse frio? Você faz alguma ideia do que fazer lá fora?

— Não. Mas entre nós três, tenho matematicamente mais chances de sucesso. Uma vez que a neve parou de cair, julgo que não devo me perder tão facilmente. Voltarei no fim do dia, com ou sem comida. Fique atento.

O estudioso não tinha argumentos para refutá-la. Apenas deu ombros, despediu-se com um redundante “tome cuidado” e viu a forma humaoide, alta e esbelta, de pele tão pálida quanto a neve e cabelos vermelho-vivo partir para o vento frio e cortante. Ele já sentiu medo várias vezes em sua vida, especialmente desde que deixara a Liga Técnica, mas sempre teve a sensação de que havia alguma coisa sob seu controle. Mas diante de um destino incerto, o horizonte se preenchendo de branco, um frio castigante e da comida no fim, ele passava a questionar as suas chances.

*****

Cibylla seguiu, afastando-se da gruta e rumando em direção a uns bosques que haviam encontrado no dia em que se abrigaram. Os pinheiros, que reconheceu pelo seu formato característico, e outras árvores de folhagem sempre verde estavam cobertos de neve. O sol brilhava timidamente, e ao tempo em que ela apreciava o fato de não ter que enfrentar o granizo caindo sobre sua cabeça e suas costas, a neve sob suas botas começava a derreter. Aparentemente três dias de nevasca não são o bastante para ela se tornar firme e não ceder sob seu peso.

Com olhos opacos, ela olhava ao redor. Atenta, ela procurava por algo, embora não soubesse exatamente o quê. Recostou-se em um tronco derrubado pelo vento forte, as raízes viradas para o céu como vários braços que tentaram se agarrar a um desfiladeiro, e sem saber exatamente como, soube que aquela árvore teria uma boa lenha para a fogueira. Passou as mãos cobertas por luvas pelos galhos secos e sem folhas – ela já estava morta antes que a ventania desse seu último golpe. Desde que cortasse apenas os galhos que não dormiram no gelo, poderia aproveitá-los.

Aparando a madeira de maneira diligente, outros pensamentos ocorreram a Cybilla. Alguma daquelas árvores teriam frutos secos, que poderiam ser assados e comidos durante a viagem sem esforço. Se uma vegetação tão frondosa havia se formado ali, poderia dar a sorte de encontrar tocas de alguns animais pequenos, embora seus rastros fossem mais complicados de encontrar, pois eles deveriam estar abrigados do frio. Se não encontrasse os refúgios, sabia como preparar algumas pequenas armadilhas. Assim, ela, Konir e Val poderiam passar mais um dia, aquecidos e alimentados de vegetais, e depois ela coletar alguma carne para a viagem.

A androide não sabia como aquelas coisas lhe chegaram à mente, mas quando terminou com a madeira, amarrou-a em um lugar alto o bastante para que não ficasse úmida no chão. Com uma postura que não era exatamente a sua, mas lhe veio de modo natural, Cibylla andou pelos caminhos emaranhados do bosque. Havia memorizado a direção do sol, e fez questão de deixar marcas de sua passagem nos galhos de árvore mais baixos. Instintivamente, evitou as copas mais pesadas, pois já que a neve começava a derreter, não queria ser surpreendida por pedaços de gelo caindo em sua cabeça. Até que ela encontrou rastros, quase como se refazendo seus passos, e não eram de pequenos animais.

Calçados. Botas um pouco maior do que as suas e recentes. Quem estaria andando tão longe de qualquer habitação em um inverno? Um caçador que, como eles, foi pego de surpresa pela neve? Mas quem iria tão longe de qualquer povoado para caçar? A não ser que essa pessoa tivesse alvos muito específicos em vista.

Há algumas semanas, os três fugiram às pressas de Chesed, onde nos últimos meses viveram uma vida relativamente tranquila. Na maior cidade de Numeria, os três conseguiram passar razoavelmente despercebidos. O Assistente Pauldris Grey cortou os cabelos, tingiu-os e virou Konir Baine; Val se passava por sua filha e aprendiz, e Cibylla, outrora Ajuda nº C-42, assumiu um novo nome. Quando se preparavam para passar seu segundo inverno na cidade, os cartazes de procurado começaram a aparecer, oferecendo recompensas absurdas em troca da captura de Konir/Pauldris, ou de provas de sua morte. Nenhuma das perspectivas a animava. Eles não tiveram escolha que não fugir às pressas.

Seguiram o Rio Selen com uma caravana de pessoas que não faziam muitas perguntas, desde que nenhum deles se provasse um fardo. Eram também pessoas animadas, sempre dispostas a contarem histórias, pertencentes a eles ou não. Esperavam que a velocidade de sua fuga tivesse espantado quaisquer caçadores de recompensas, mas aquelas evidências provavam o contrário. Alguém muito determinado estava bem próximo de encontrá-los, e Cibylla não permitiria aquilo.

Com cuidado, ela levantou o capuz e seguiu os rastros. Evitando fazer barulho, calculou bem seus próprios passos, pois qualquer movimento em falso poderia entregar sua posição. Não soube precisar o tempo que caminhou pela vegetação, mas não importava.

Seus movimentos eram calculados, quase tão frios quanto o vendo forte que balançava a folhagem. Se a postura cuidadosa no início da caminhada lhe parecia estranha, agora tudo lhe era natural. Como um livro antigo, encontrado em meio a uma estante empoeirada, que você começa a ler apenas para lembrar que conhecia a história de muito tempo atrás. Quando?

Chegou ao acampamento. Alojada contra a encosta da margem de um córrego, uma tenda de couro grosso. Restos de uma fogueira, protegidos da neve com um círculo de pedras. Do outro lado da corrente de água, um cavalo não a notara, distraído com uma porção de comida. Nenhum outro barulho além do vento, da água, e do ocasional relinchar do animal. Quem quer que fosse aquela pessoa, não estava em casa. Isso deu a Cibylla a oportunidade de confirmar suas suspeitas.

Primeiro, afastou o animal, para que ele não entregasse sua posição. Uma sela de boa qualidade, arreios hidratados e bem cuidados. Era alguém experiente. O quadrúpede, porém, estava cansado e arfava pesadamente, e não ofereceu resistência quando foi guiado um pouco mais para longe, onde haveria mais comida.  Na tenda, encontrou alguns suprimentos que lhe seriam úteis, e a prova que estava esperando: cartazes com o rosto de Pauldris Grey estampado. Cibylla não deixou de se espantar com a diferença entre as duas pessoas. Olhos encavados, com grandes olheiras, e uma barba desgrenhada. Ele já fora tão velho assim? Teria ela mudado tanto também?

Seu primeiro pensamento foi o de pegar os suprimentos que pudesse e fugir, talvez até o com animal. Mas não, isso seria um erro. Cibylla não sabia montar, e deixaria um rastro muito fácil de seguir. Acabaria entregando a posição de todos, possibilitando que aquele indivíduo os surpreendesse quando estivessem vulneráveis. Ela iria preparar uma armadilha.

*****

No alto de uma árvore, ela resetava o arco com cuidado. A figura seguiu os passos do cavalo, como Cibylla esperava. À pouca distância, pôde analisar melhor o seu alvo. Altura mediana, passadas cuidadosas, compleição física acima da média. Uma barba espessa cobria-lhe o rosto, mas uma cicatriz profunda descia-lhe pela face esquerda, ficando oculta por um tapa-olho. Ele andava com a experiência de anos de ofício, e pelas armas que carregava, a androide sabia que um embate direto seria arriscado.

Prendendo a respiração, esperou que ele se aproximasse mais do animal. Torcia que seus rastros estivessem bem cobertos, e mais importante, que ele não percebesse a corda tesa, oculta por folhagens e galhos secos que ela retirou às pressas das árvores. Contou cada passo, um após o outro, devagar… e a corda se rompeu.

Antes que pudesse entender o que estava acontecendo, o caçador ouviu um estalar de madeira alto, um zumbido de flecha e uma montanha branca de gelo e neve caiu sobre ele. O homem ainda tentou rolar no chão, mas não conseguiu reagir a tempo e ficou soterrado. Cibylla pulou para o chão, sabendo que não tinha o tempo a seu favor, e foi tentar amarrá-lo.

Por muito pouco conseguiu evitar o pior do golpe de um machado na direção da sua perna. Sentiu a lâmina atravessar o couro da bota e chegar à pele, tingindo a neve de vermelho. Não era estranha à dor, mas o ardor do ferimento a colocou em ressalva. Com um golpe preciso do sabre cortou o pulso do caçador, que gritou de dor e quase se engasgou com a neve que lhe entrara pela boca.

A refrega foi rápida. Caído e soterrado, o caçador era um alvo vulnerável. Mas não foi sem esforço que Cibylla o amarrou à árvore. Aproveitando-se do seu tamanho, ele resistia e bufava, e só depois de um golpe bem aplicado entre as pernas ele se limitou a gemer.

— Devo supor que você veio até tão longe pela recompensa, não é?

— Sua puta barata, eu vou acabar com você!

— Você não quer perder o outro olho, quer? — ela se abaixou, encarando o homem. Na mão direita, o sabre ameaçava o pescoço do homenzarrão. Na esquerda, a lâmina da adaga roçava próxima da orelha. Aquela não era a sua voz, o seu tom monocórdico. Era ameaçador, carregado de malícia e frieza. — Ou posso arrancar as falanges dos seus dedos. Com sorte, o gelo e o frio vão estancar seu sangramento, e você poderá fugir. Mas não acho que o resto de sua vida vai ser bem mais difícil…

O homem respondeu com o silêncio, desafiando-a. Uma ameaça não realizada seria vazia e ineficiente, e ela não hesitou. Com uma precisão que ela não sabia possuir, cravou a lâmina menor na parte interna do dedo indicador do sujeito, que berrou de dor e raiva, e depois, gemeu de resignação.

— Há outros… Atrás de vocês. Do mago e da menina. Você é um bônus. Seu… Mestre, Gartoni…

— Eu não tenho mais mestres. E você, homem caolho de nove dedos, vai nos deixar em paz. E vai dar o recado para os outros. Nós não vamos nos curvar à Liga. Está claro?

Depois de alguns segundos, o homem assentiu. A mulher sorriu, um sorriso calculado e cruel. Com o cabo da adaga, desferiu um golpe forte na cabeça do homem, que tombou inconsciente. Sem pressa, embalou os suprimentos, a tenda, e não esqueceu o cavalo, uma ajuda muito bem vinda pelo resto da viagem.

Quando deu por si, guiava o cavalo pelos arreios, com a tenda e os suprimentos amarrados. Ela não sabia explicar o que tinha acontecido, como por alguns momentos ela parecia estar assistindo às suas próprias ações. Seria como um sonho?

Não soube explicar. Quando Konir perguntou onde ela tinha conseguido todas aquelas coisas, ela deu de ombros e disse que não se preocupasse. Ele não tocou no assunto de novo. E no dia seguinte, bem alimentados e aquecidos, seguiram viagem.

Ready, set, go

30 abr

“I can tell you why people go insane/ I can show you how you could do the same”

Audioslave, Shadows on the sun

A mochila no colo a lembrava do trabalho que a aguardava pelo resto do dia. Naquele momento, porém, a felicidade era completa: sentada à janela do trem refrigerado, sentia o sol do Rio de Janeiro acarinhar-lhe o rosto. Frio e calor ao mesmo tempo, na dose exatamente certa. Gostava das pequenas coisas.

Olhou pela janela conforme as ruas passavam rapidamente ao seu lado correndo, como todo mundo corria naquela cidade. O tempo corria, o relógio corria, as pessoas corriam. Ela própria correria antes do final do dia: correria com prazos, correria para sair, correria para chegar.

E como se não tivesse pressa, o trem parou na estação da Piedade. Quase sorriria da ironia depois. Piedade?

Era uma parada normal, prevista para aquela linha. Havia outras, que paravam menos, mas por serem mais rápidas, eram mais cheias de gente. O lugar vago à esquerda a deixava feliz com sua escolha. Eventualmente alguém sentaria ali, mas por enquanto o espaço vago era mais um motivo para sorrir sozinha. Era uma segunda-feira, afinal. Tinha que aproveitar o bom humor.

E correndo, como o resto da cidade, um homem pulou a grade da estação, vindo da rua. Nada de errado até então – entrar no trem sem pagar a passagem. Não seria a primeira vez que veria isso. Pulou e continuou correndo, apressado, obstinado. Deve estar querendo pegar este trem. Ao menos foi o que ela havia pensado.

Notou com o canto dos olhos outro trem que se aproximava pela outra via férrea. E pela velocidade, não iria parar.

Mas o rapaz pararia.

E pela segunda vez aquela manhã, pensou errado.

Ele… realmente fizera aquilo?

Mochila, chinelos e outras coisas que não podia identificar voaram pela linha férrea. “Vocês viram isso?”, foi o que conseguiu falar, sem ter a menor noção do que fazer. As pessoas se amontoavam, olhando pela janela que ela já não tinha mais coragem de encarar. Todos pararam para ver.

Logo, o trem começou a se mover, retornando à pressa habitual. As pessoas se sentaram, ainda falando sobre o acontecido.  Mas logo esqueceram, e voltaram a falar sobre outras coisas.

À janela, a cidade correu mais uma vez.

Baseado em um fato real que não aconteceu comigo, mas vocês podem ver aqui.

Finding yourself out

19 jan

Keriann - hair

Descansar, mesmo que fosse em uma cabana simplória numa noite fria, era muito reconfortante. Keriann sentia as pernas cansadas da viagem, e os ferimentos causados pelo combate inusitado da noite. Deitada no saco de dormir, olhava para sua mão direita, encarando a cicatriz profunda deixada pela adaga de Leona. A seus pés, Summer fechava os olhos, como se compartilhasse a inquietação da arqueira.

Mas não era a luta o que lhe atormentava aquela noite – no final das contas, encontrar Gawden, o ancião do vilarejo, foi até providencial. E os sortilégios curativos que ele performara foram o bastante para aplacar a dor física. O que inquietava sua cabeça, impedindo-a de dormir, eram as palavras ferinas do bardo: “uma cadelinha sem pensamentos próprios que o obedecia sem hesitar”.

Por mais que a ideia a incomodasse, aquela foi a única verdade que Adrian proferira durante toda a noite. Keriann sempre escutava o que Lyon dizia, sempre seguia seus conselhos, e não hesitava em retesar o arco quando ele pedia. Soldados bem treinados muitas vezes desobedeciam a seus capitães, em prol de si mesmos. Mesmo animais de caça fugiam dos seus donos às vezes. E quanto a ela? Mesmo quando discordava das opiniões do guerreiro, ela o seguiu.

E agora, Keriann se perguntava o porquê. Qual o motivo? Mesmo quando ele abandonou a todos – perseguindo loucamente os captores de Aillah, que por coincidência triste do destino eram liderados por Leona, irmã de Lyon – mesmo assim, ela o seguiu, sem hesitar. E não era por conta de Profecia alguma. Na verdade, a arqueira já esquecera-se daquilo há muito. Era outra coisa, incondicional, espontânea e que ela não conseguia explicar nem a si mesma.

– Pela Dama… eu não acredito que eu amo este homem.

O choque da descoberta a deixou pasma por algum tempo, não poderia medir. Repassava em mente os momentos, as conversas nas noites de guarda, os treinamentos, o desabafo no castelo de Clampot. Olhou para Lyon, deitado no saco de dormir. Estaria dormindo? Deveria contar a ele?

Claro que não, que ideia. Lyon era casado, estava prestes a ter um filho, e apesar dos pesares, parecia gostar da esposa. Não seria certo. E seria correto abrir mão de seus próprios sentimentos? Ser obrigada a casar foi o que a fez fugir de casa. No entanto, correr o risco de destruir uma família prestes a se formar não parecia a melhor coisa a se fazer. Guardar suas inquietações seria nobre, certamente. Mas era o que desejava?

Virou para o outro lado, encarando a parede. Podia estar confundindo os sentimentos. Não era a primeira vez que isso acontecia. Podia ter sido levada a acreditar naquilo, graças às bravatas ácidas do bardo. “Uma cadelinha sem pensamentos próprios”. Suspirou fundo. Sejá lá o que fosse, era melhor guardar para si.

Levantou-se, impaciente. Não conseguiria dormir agora, apesar do cansaço. Sorrateira, andou para onde estava Lyon, o meio-elfo de cabelos loiros que causava sua insônia. Definitivamente estava dormindo. A respiração ritmada, o peito subindo e descendo cadenciado…

A arqueira se aproximou, sentindo o coração acelerar dentro do peito. Os curtos cabelos cacheados caíram para frente, e então ela parou, com medo de que o roçar das madeixas acordasse o guerreiro. Ficou naquela posição não sabe por quanto tempo, indecisa sobre o que fazer. Pareceu uma eternidade até que resolveu se levantar. Voltou para o seu saco de dormir, resignada. Não, não era a coisa certa a se fazer. Chacoalhou a cabeça, como sempre fazia quando queria esquecer alguma coisa, e fechou os olhos. Amanhã seria um dia longo.

Seda e Aço

8 jan

A lua brilhava alta no céu, refletindo-se no riacho que cortava as terras da família Matsumoto. O casamento realizara-se no pequeno templo dedicado aos ancestrais da família, simbolizando os antepassados que olhavam e abençoavam a união do jovem casal. Arashi terminou de acender o incenso em honra aos espíritos, para que olhassem com bons olhos a noite de núpcias, enquanto o silêncio imperava entre os dois.

– Hanarai. Flor selvagem. É assim que seu irmão a chamava, quando estive com ele. Há algum motivo especial?

Saiki tinha uma voz macia e sutil, como um pincel pesado de tinta que percorria o linho. Devia ser com essa leveza que fazia suas pinturas. Arashi sorriu polidamente, lembrando-se do irmão.

– Ele deve ter lhe contado o motivo.
– Sim, de fato. – ele sorriu. – Mas boas histórias sempre possuem várias versões. Além do mais, eu prefiro ouvi-la dos seus lábios, se não for inconveniente.
– Minha mãe me chamava assim, porque eu costumava cavalgar para os limites das terras, mesmo quando me diziam para fazer o contrário. E porque eu era um tanto… irritadiça.
– Isso explica a parte do selvagem. E basta olhar para você para entender o porquê de ser chamada de flor.

Enquanto falava, o pintor passou os nós dos dedos delicadamente por seu rosto, contornando-lhe o queixo. Um pouco da maquiagem se desfez, e percebendo isso, a jovem falou:
– Creio que seja melhor remover a maquiagem. Eu…
– Não precisa de pressa, Arashi. Acho que essa é uma das poucas vezes que vou vê-la assim, então gostaria de me deleitar um pouco mais com a visão. A não ser que seja um incômodo para você.
– Como sabe que eu não gosto de…? Você e meu irmão conversaram bastante a meu respeito, não?
– Já que eu estava prestes a me casar com a irmã de Enishi, nada mais natural que eu querer saber sobre minha noiva, não?
– Eu não sei nada sobre você.
– Isso é fato. E de onde eu venho, a melhor maneira de conhecer alguém é vendo como esta pessoa maneja uma espada. Você é uma guerreira, não? Me daria a honra?
– Já deseja matar a sua noiva na noite de núpcias? – Arashi sorriu divertida, sabendo que algo assim não aconteceria. Enquanto falava, dirigia-se ao altar onde suas espadas estavam guardadas. – Achei que fosse um pintor.
– E sou. Mas a leveza e precisão de um pintor está também na leveza e precisão de sua espada. Cada pincelada é como um golpe: deve ser calculado, observado, preciso e rápido. Ou a tinta secará antes que possa ser misturada.
– Minha família não aprecia duelos.
– Mas você os acha ao menos divertidos, não?

Os dois fizeram uma reverência medida, e sacaram as espadas. Logo as lâminas se chocaram, e o barulho de metal ressoou no aposento.  Arashi investiu em um golpe longo e demorado, apenas para ser aparado pela espada de Saiki. E como nos passos de uma dança, um media os golpes do outro, completando-se com uma precisão memorável. Seda e metal se cruzavam, indo e voltando, aproximando-se e afastando-se, como os movimentos do mar. Até que Arashi sentiu a ponta da espada na altura do estômago, enquanto pressionava ameaçadoramente a sua lâmina no pescoço do esposo.

– Acho que podemos dar isso por acabado, não? Um empate? – falava o jovem, com uma expressão tranquila e um leve sorriso no rosto.
– Só se pudermos desempatar. Amanhã.
– É uma disputa de um pintor contra uma samurai treinada. Não acha injusto, minha querida?
– Meu forte é com o arco, mas você também deve saber disso. Além do mais, são ótimas oportunidades de nos conhecermos melhor.
– É justo. Agora que tal desarmar-se tanto da espada quanto da alma?
– Desarmar-me…?
– Você estava fechada como uma ostra quando entrou no templo, e agora eu consegui ao menos que duelasse comigo. O que eu preciso fazer para que me deixe beijá-la?

Arashi baixou a espada, com um sorriso envergonhado. Embainhou a espada, e ele fez o mesmo, aproximando-se. Segurou-lhe o queixo delicada porém firmemente,  e seus lábios se tocaram. Longe dali, a lua refletia-se nas correntes do riacho, que seguiam seu destino para o mar.

Awakening – Parte II

1 out

Sempre me disseram que conhecimento é poder. E agora eu posso entender o porquê.

Sempre me disseram, também, que a ignorância é uma bênção. E graças a tudo o que me ocorreu, eu também posso entender o porquê.

Já não estava mais no hospital, nem no prédio. O lugar me era completamente diferente agora. Um vento seco cortava o meu rosto, e uma paisagem desértica abria-se diante dos meus olhos. Decadente é o melhor termo, na verdade. Ruínas de prédios, carcaças de carros… o lugar cheirava a ferrugem, a decadência. A medo.

Comecei a andar, embora não fizesse idéia de para onde eu estava indo. O lugar parecia deserto, mas algo dentro de mim dizia que não. E que na verdade eu não gostaria de encontrar quem realmente habitava. Mas aquela não era uma escolha minha.

Crack.

Olhei para trás, a tempo de perceber uma movimentação atrás de uma carcaça metálica. Havia alguém além de mim, sem dúvida. E por mais que eu quisesse saber quem era, ou onde estava, tinha certeza de que aquele ser não era o mais indicado para eu pedir informações. Apressei o passo, e não demorou muito para que eu me visse correndo no meio de tudo aquilo.

Arrisquei virar o rosto, somente para ter mais vontade de correr. Criaturas retorcidas, com dentes afiados e amarelados me perseguiam. Cada vez que se movimentavam seus ossos pareciam estalar, como se desacostumados à atividade. Não falavam – mas emitiam barulhos, que mais pareciam ter saído de uma garganta à qual faltavam cordas vocais. Os sons eram vários – minhas botas no cascalho, metal retorcido… Com esforço pude distinguir:

– Viivaa… ela está…. vivaa…

Diferente de mim, aquelas coisas não pareciam se cansar. Sentia meu peito arquejar, a respiração faltava, e eu não sabia por quanto tempo mais aguentaria. Os barulhos se aproximavam, assim como o cheiro de enxofre que exalavam. Minhas pernas doíam, e o vento forte fazia minha cabeça rodar. Se o inferno existe, definitivamente deve se parecer com aquele lugar.

Mal percebi quando comecei a pisar em algo aquoso. Água, ali? Não havia lugar diferente para onde ir, então continuei. As criaturas pararam, mas ficaram cercando a margem. Às vezes tentavam avançar, mas não tocavam a água. Havia, aparentemente, alguma vantagem em estar viva naquele lugar.

Percebi então que era um rio, cuja foz se estendia longamente a perder de vista. Uma névoa densa limitava a visão, de modo que só conseguia ver, de fato, até umas dezenas de metros de distância. E uma sombra, mais escura que a névoa, se aproximava lentamente de mim. Por instinto recuei alguns passos, mas o cheiro de enxofre atrás de mim lembrou-me de que estava encurralada.

Conforme a sombra se aproximava, percebi uma silhueta de alguém em um barco. Carregava uma longa vara, com a qual guiava o barco simples, de madeira, sem adornos. Trajava um longo manto com capuz, e a única coisa que ficava à mostra era seus dedos pálidos, e seus cabelos enegrecidos, de aparência úmida.

– Uma moeda.

Caronte, o barqueiro do rio Aqueronte. Lembrei-me da ilustração de Gustave Doré, feita para a Divina Comédia de Dante. A lenda dizia que o barqueiro levava as almas dos mortos pelo afluente do Estígia, dirigindo-os para o Inferno, seu verdadeiro destino. Os antigos tinham o costume de cremar os corpos com uma moeda embaixo da língua, para que eles pudessem fazer a passagem pelo rio. O Detalhe era: eu não estava morta, nem tampouco tinha um óbulo comigo. Ou será que, de fato, eu havia morrido? Olhei para trás e as criaturas continuavam ali, à espreita, apenas esperando um deslize.

– Mas… eu não tenho nada aqui.

Sua alma.

Um vento frio roubou-me o fôlego. Eu não tinha muitas opções, no entanto. Voltei o rosto para a margem, e as criaturas continuavam ali. O cheiro de enxofre chegava até mim, suas vozes disformes e seu hálito exageradamente quente.

– A troco de quê? – falei, enquanto recuava lentamente na direção da margem. Se eu estava morta de fato, não importava muito para quem a minha alma fosse.

Conhecimento. Sobre você. Sobre o que você é. E o que você pode fazer.

Ele podia não falar muito, mas era um ótimo negociador. Sem pensar duas vezes, subi no barco. E a embarcação seguia, sem remos, pelo rio.