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O sapo

8 maio

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Meus pais sempre quiseram uma piscina dentro de casa. Enquanto morávamos em apartamento, esse era um sonho impossível, claro. Então nos mudamos para uma casa, e durante muito tempo, outras prioridades foram se sobrepondo. Quase duas décadas depois, com as facilidades de um cartão de crédito e um dinheiro guardado, eles colocaram uma piscina em casa.

Em seguida, vieram os “acessórios”: umas pedras coloridas das quais não sei o nome, plantas adornando os arredores, cadeiras de plástico para tornar o ambiente mais palatável até para aqueles que não quisessem se aventurar nos profundos cento e cinquenta centímetros de água tratada e clarificada. Como qualquer ambiente de uma casa, com o passar dos anos, a piscina passou a ter sua decoração particular. Até que veio o sapo.

Um sapo de cerâmica de mais de um palmo de altura, com assustadores olhos de bolas de gude. Ele tinha um tom de amarelo doentio, com manchas amarronzadas pelo corpo. “É para dar sorte”, dizia a minha mãe. “Ele é pavoroso”, foi a minha resposta.

Eis que ao sapo recém-chegado é dado um lugar de honra: em uma das pontas da piscina, com o intuito de pregar peças aos desavisados que atravessassem o tanque em um único mergulho e emergissem do outro lado – porque a piscina é pequena assim. A ideia foi minha, admito. E ela me rendeu boas risadas.

“Credo, achei que fosse de verdade”, disse uma tia ao conhecê-lo. Rimos e continuamos. Tornou-se um tipo de tradição “prestar honras” ao sapo, sempre após o primeiro mergulho. Uma espécie de pequeno deus do lar, a escultura parecia aumentar, conforme seu ego era alimentado pelos pequenos gestos de respeito. Ela continuava do mesmo tamanho, claro, mas havia algo de… inquietante.

Afastei-me do ambiente, convencendo-me que guardava muito trabalho para os fins de semana, muitas leituras, ou jogos de vídeo-game. A verdade é que o sapo me deixava desconfortável, como se suas bolas de gude me seguissem pelo ambiente. Para o resto das pessoas, porém, era só um… sapo. De cerâmica. Até que um dia ele se revelou.

Era tarde, tão tarde que já dava para fazer aquela piada de “cedo do outro dia”, mas ainda estava escuro. Depois de me despedir dos meus amigos, fui fechar os portões, com todas as luzes acesas, claro. Quando eu já me afastava do quintal, vi algo ganhando forma com o canto dos olhos.

Pensando ser alguma espécie de intruso, quis verificar, embora qualquer pessoa com bom senso devesse se afastar dali. Puxei um dos espetos de churrasco meio enferrujados que ficavam próximos à porta (“Cuidado! E-eu vou te ameaçar com… tétano?”) e tentei notar, entre a grade já trancada, quem estaria andando no quintal da minha casa, perto da piscina. Pude notar uma forma escura se mexendo entre as plantas, sem fazer barulho algum, porém.

Pensei em dar a volta na casa, mas no tempo que eu levasse para fazer isso, quem quer que estivesse lá poderia ir embora ou, pior, notar minha movimentação. Sem perceber, prendi minha respiração, e segurei o cabo do espeto na tentativa de parar a tremedeira. Qual era mesmo o mantra de Arya? “O medo corta mais do que a espada… coisa nenhuma, o medo te ajuda a manter viva, menina, corre daí!”.

Fiquei, e finalmente consegui divisar o que se mexia na área da piscina. A estatueta do sapo continuava ali, parada, encarando a água que se mexia levemente ao sabor da brisa leve. Atrás dele, uma forma muito mais alta, ultrapassando as paredes da minha casa, levantava-se como se despertando de um sono profundo. As papadas negras de sombra subiam e desciam, subiam e desciam, no mais puro silêncio. O único brilho em todo o corpo da criatura gigante estava nos seus olhos, que refletiam azuis no tanque diante dele.

Paralisada, continuei a observá-lo. O que quer que fosse aquilo, já tinha me notado, como pude atestar pelo olhar que a criatura dirigiu para mim. Abaixando a cabeça, ele me encarou. Engoli em seco, muda de pânico, até que ele saltou. Não desengonçado, como a maioria dos sapos, mas com uma precisão inimaginável para um ser daquele tamanho. Sem peso, ele se apoiou no telhado acima de mim, como se quisesse guiar meu olhar pro verdadeiro perigo que ali espreitava.

Era uma noite sem lua, então eu contava apenas com as estrelas e minhas lentes de míope. No entanto, uma forma de asas e patas que pareciam querer agarrar a minha casa, como uma ave predatória, fazia voos em círculo. O sapo estava dando combate à outra forma, e, assim, protegendo a nossa casa.

Corri para o jardim, de onde eu esperava ter uma visão melhor. Sem saber exatamente o porquê, ainda segurava o espeto de churrasco, mas as duas formas de sombra travavam sua luta na altura da viga mais alta da casa. Assustada e fascinada, tentei escalar o muro, para ficar numa altura mais próxima do telhado, mas quando estava a meio caminho de subi-lo, senti uma presença cair no jardim de grama orvalhada.

De alguma forma que eu não consegui entender, o sapo havia se engalfinhado com o pássaro, e a luta estava feroz. O invasor parecia se mexer de maneira convulsiva, enquanto o outro tentava sufocá-lo de alguma forma. Encolhida contra o muro, não podia tentar sair dali, correndo o risco de ser atingida no meio do combate. Afinal, o que eu poderia fazer?

O sapo soltou uma espécie de coaxar alto quando o bico da criatura o atingiu no olho, e o anfíbio, talvez em dor, libertou seu inimigo do abraço. O pássaro, porém, já devia estar bastante machucado, e levantou um voo desengonçado, desaparecendo no céu escuro. Quando desci o olhar de volta para a casa, vi o sapo saltar de volta para o telhado, e depois desaparecer, provavelmente retornando para seu invólucro de cerâmica.

Ofegante, fechei todos os portões, deixei o espeto em cima da mesa e fui para o quarto. Dormi vencida pelo cansaço, e, no outro dia, relutei em ir para o quintal, embora já acreditasse que tudo não tivesse passado de um sonho muito estranho. Já quase esquecera do evento quando ouvi minha mãe dizer:

– Ué, cadê o olho do sapo? Filha, cê viu ele por aí?

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Projeto “Adaptação e Leitura”: update #001

29 jun

Como, há alguns meses, postei por aqui uns esboços sobre uma ideia que estava me encafifando e algumas pessoas se interessaram, aqui vão alguns updates do projeto Adaptação e Leitura (rá, arrumei um nome. Não é um bom nome, mas é um nome de qualquer forma).

Como vocês se lembram (ou não), a ideia era, na etapa final, integrar o RPG, através do título Fiasco (publicado no Brasil pela Retropunk). Embora eu não tenha planos de usar os cenários oficiais, mas sim criar um mais adequado, eu ainda pretendo fazer isso, mas não sei se será possível, graças a dois fatores. Um deles, bem objetivo, é o tempo – as reuniões estão ocorrendo quinzenalmente, ao invés de semanalmente (por motivos de ambas as partes, meus e das alunas envolvidas), o que atrapalha um pouco o andamento. O outro, mais subjetivo, vou desenvolver aqui. Talvez uma alma iluminada possa me dar alguma sugestão.

Os primeiros encontros foram, na melhor das hipóteses, desanimadores. Vimos o filme (eu escolhi o Jogos Vorazes, Gary Ross, 2012, por achar que seria mais fácil guiar uma discussão no sentido de crítica às mídias de massa, e daí levar por um lado mais político/social) e a conversa posterior foi… superficial. As leituras não passavam do nível da narrativa, os elementos levantados como mais importantes também não passavam disso. Na melhor parte, houve uma comparação com Crepúsculo (ponto pra mim, pelo menos elas preferiram  Catniss a Bella).

Impossível dizer que não bateu aquele desânimo. Mas no caminho para casa (os ônibus e sua capacidade de fazer a gente pensar), ponderei algumas coisas e relativizei a situação: são crianças com um baixo nível de leitura, e que o contato com narrativas, na maioria das vezes, se limita a telenovelas e uns poucos textos das aulas de português. E elas estavam se esforçando, isso era notório. Então, nada mais justo e eu me esforçar também.

No encontro seguinte, peguei em um ponto do filme que acho particularmente interessante enquanto pessoa, e, por que não dizer, feminista (spoiler, mas só um pouquinho): “Ele está fazendo você parecer desejável, e isso atrai patrocinadores”, disse Haymitch, o mentor do casal protagonista. E assim, as coisas avançaram, passando pela representação do feminino/masculino em anúncios, consumismo e os papéis desenvolvidos pelas mulheres socialmente. E daí, a discussão fluiu melhor. Talvez por só haver meninas na faixa etária dos 13-14 anos, tenha sido mais fácil.

Agora, voltando ao segundo fator, que tem a ver com o RPG, lááá em cima no texto. Como eu disse no primeiro encontro com as alunas, eu quero formar leitores melhores (itálico para designar aquele efeito de destaque na voz). Quero pensar que, ano que vem, quando elas estiverem no ensino médio, elas possam se deparar com um texto e visualizar seus intertextos, seus subtextos. “Ler as entrelinhas”, como se diz por aí. Detectar as sutilezas do discurso jornalístico, as técnicas de argumentação, e usá-las, claro, ao seu favor no enriquecimento do senso crítico.

Certo, eu sou professora de português, é parte do meu trabalho querer isso. E a ideia de usar o RPG era, sim, incitar o lado lúdico, criativo, que também acho que seria de forte atuação no sentido de instigar o senso de leitura além das letras de um texto. Mas também há de se considerar a recepção do público à ideia. As discussões com as garotas estão claramente melhorando, mas não sei se a criação de uma história coletiva teria tanto sucesso.

Mas talvez eu esteja errada, e só fazendo tempestade em copo d’água. Terminada a leitura do primeiro livro,  Jogos Vorazes (Suzanne Collins, Rocco Jovens Leitores), pretendo propor, inicialmente, uma redação. Dependendo de como as coisas acontecerem, vamos experimentando. E aí, como eu gosto de dizer, “a gente vê o que faz”.

Esboço de um Projeto de Leitura

2 fev

Faz séculos que não uso blog como diário, então, vamos ver no que isso dá…

Ano novo, cabeça cheia de ideias e projetos que você não consegue levar a metade adiante. Resolvi me organizar e planejar, esperando, assim, atingir uma meta de 60% das coisas que gostaria de fazer para 2012.

Aos que interessarem, eu não abandonei a literatura, ela só mudou de lugar. Divulgo o espaço já já por aqui. Ela está, inclusive, entre os projetos mais ambiciosos do ano. 😉

Um deles, que eu matutava há uns bons tempos, era uma ideia de incentivo à leitura. Minha experiência (não tão larga) enquanto professora levou-me à conclusão de que as pessoas não leem. Sim, estou generalizando, mas por mais que se diga que, com o acesso à informação, as pessoas estão lendo mais, a realidade que eu vislumbrei foi bem diferente.

Quando me perguntavam como eu conseguia escrever bem, eu respondia sem pensar: “eu leio”. Ler me ajudou a saber expressar melhor minhas ideias em uma folha de papel, bem como oralmente. É um hábito fundamental na formação de uma pessoa enquanto cidadão, e é, muitas vezes, relegado a um passatempo infrutífero.

Quantos “ler me dá sono”, “acho literatura chato”, “não gosto nem de ler legenda” eu ouvi, e ouço, por aí. Eu não disfarço a tristeza quando escuto uma dessas, e ainda tiro piada: “então como você joga vídeo game?”, “ih, desse jeito não vai ter nenhum Edward na sua vida tão cedo”, “e ainda se diz fã de Harry Potter? Tem sete livros que você não leu!”. As respostas mais indecorosas foram devidamente omitidas aqui, claro. ;D

Então, vendo casos como o do escritor José Roberto (autor do Baronato de Shoah, publicado pela Draco, e com uma sequência em produção), pensei que é necessária uma maneira interessante de atrair a galera pra leitura, que vá além do “me entregue um resumo desse livro para a próxima semana”. E bem, por que não usar o RPG?

Há diversas experiências interessantes usando RPG e Educação, diversas. Mas na maioria delas, não rolava aquela… identificação. Eu li, achei bacana, interessante, mas na hora de pensar em como eu poderia aplicar, a ideia travava. Sem problemas: deixei ela adormecida ali no cantinho do cérebro, esperando a tempestade que a despertaria. E então eu conheci Fiasco.

Edição brasileira de Fiasco pela Retropunk.

RPG sem mestre, com poucas rolagens de dados, e extremamente de improviso. Rápido para a finalização de uma história (cada partida dura em torno de três horas, dependendo do andamento), e em sintonia com uma mídia que tem bem mais a ver com os jovens de hoje: o cinema. Vislumbrei ali a possibilidade real de, finalmente, conseguir unir RPG e educação. E mexendo com uma das coisas que eu mais gosto: contar histórias.

Fui ao SESC, aqui em João Pessoa, saber o que eles têm voltado para a leitura. Falei com a simpática bibliotecária, e ela me contou que eles têm sim um projeto, voltado para as escolas. Mas não posso mentir que o formato não me agradou muito: levar livros para as escolas, induzir a produção textual. É válido, deve ter um feedback interessante, mas parece contar muito com a disposição do estudante. E essa, meus colegas, é uma coisa que a gente não pode contar.

Eu quero exatamente o contrário, algo que faça o estudante ter interesse pela leitura. Eles têm um imaginário, permeado de… de quê? Acabo de descobrir a primeira coisa a fazer para o projeto: uma avaliação diagnóstica.

O que meu público gosta de consumir quando o assunto é entretenimento?

Big Brother? Malhação? Brasil Urgente? Corre e anota isso, Allana!

Se ficar no Harry Potter, serei feliz.

Uma vez descoberto o imaginário, vem a parte de trabalho braçal: criar cenários que possibilitem histórias que os agradem. De preferência, baseados em obras literárias (clássicos ou não), para assim dar a deixa: “E então, essa história que vocês criaram em conjunto, foi baseada nesse livro aqui. Que tal falar um pouco sobre ele? Melhor, que tal se vocês lessem, e a gente depois fizesse uma comparação, saber o que ficou melhor, o que ficou pior?”.

Hm, isso é uma ideia boa, eu acho. Vou anotar também.

Melhor: antes de chamar os “mediadores” (acho que esse é um bom termo) para um jogo de Fiasco, vou fazer uma reunião com a turma a ser usada de cobaia (é um experimento científico, afinal de contas) e pegar algum filme adaptado de um livro. Depois da avaliação diagnóstica, vou escolher um filme, ver com os alunos e então propor um clube do livro: uma vez por semana, poderia ler um trecho em conjunto com eles, e, então, ir conversando sobre as mudanças que ocorreram de uma mídia para outra. Isso feito (de preferência com um livro mais curto, para que os encontros não sejam cansativos), apresento a possibilidade de jogarmos um “jogo de interpretação” baseado naquela história que vimos e lemos.

Se vier Crepúsculo... oh, noes!

“Ah, mas eu quero ser Harry Potter”; isso é algo que eu vou ouvir. Para contornar esse problema, é bom deixar claro que é uma história no mesmo cenário, e não com os mesmos personagens. Pensem que eles podem estar em Hogwarts, ou entre um duelo com lobisomens e vampiros.

E agora, eu mexo com as coisas que eu mais gosto: adaptação, leitura e RPG. Triple kill!

Já tenho a escola que vou usar de base. Vou conversar com a diretora (que, por acaso, é a minha mãe) e expor a ideia. Sei que ela vai gostar, mas preciso de um guia, principalmente, pra escolher a turma beta. Postarei (caso interesse aos 1d3-1 leitores) aqui o desenrolar dessa história, que não tem muito de fantástica.

UPDATE: convenci a diretora e dois professores! \o/ Agora é escrevernum textonde apresentação com a ideia e começar. Devo cmeçar em março/abril!

Seda e Aço

8 jan

A lua brilhava alta no céu, refletindo-se no riacho que cortava as terras da família Matsumoto. O casamento realizara-se no pequeno templo dedicado aos ancestrais da família, simbolizando os antepassados que olhavam e abençoavam a união do jovem casal. Arashi terminou de acender o incenso em honra aos espíritos, para que olhassem com bons olhos a noite de núpcias, enquanto o silêncio imperava entre os dois.

– Hanarai. Flor selvagem. É assim que seu irmão a chamava, quando estive com ele. Há algum motivo especial?

Saiki tinha uma voz macia e sutil, como um pincel pesado de tinta que percorria o linho. Devia ser com essa leveza que fazia suas pinturas. Arashi sorriu polidamente, lembrando-se do irmão.

– Ele deve ter lhe contado o motivo.
– Sim, de fato. – ele sorriu. – Mas boas histórias sempre possuem várias versões. Além do mais, eu prefiro ouvi-la dos seus lábios, se não for inconveniente.
– Minha mãe me chamava assim, porque eu costumava cavalgar para os limites das terras, mesmo quando me diziam para fazer o contrário. E porque eu era um tanto… irritadiça.
– Isso explica a parte do selvagem. E basta olhar para você para entender o porquê de ser chamada de flor.

Enquanto falava, o pintor passou os nós dos dedos delicadamente por seu rosto, contornando-lhe o queixo. Um pouco da maquiagem se desfez, e percebendo isso, a jovem falou:
– Creio que seja melhor remover a maquiagem. Eu…
– Não precisa de pressa, Arashi. Acho que essa é uma das poucas vezes que vou vê-la assim, então gostaria de me deleitar um pouco mais com a visão. A não ser que seja um incômodo para você.
– Como sabe que eu não gosto de…? Você e meu irmão conversaram bastante a meu respeito, não?
– Já que eu estava prestes a me casar com a irmã de Enishi, nada mais natural que eu querer saber sobre minha noiva, não?
– Eu não sei nada sobre você.
– Isso é fato. E de onde eu venho, a melhor maneira de conhecer alguém é vendo como esta pessoa maneja uma espada. Você é uma guerreira, não? Me daria a honra?
– Já deseja matar a sua noiva na noite de núpcias? – Arashi sorriu divertida, sabendo que algo assim não aconteceria. Enquanto falava, dirigia-se ao altar onde suas espadas estavam guardadas. – Achei que fosse um pintor.
– E sou. Mas a leveza e precisão de um pintor está também na leveza e precisão de sua espada. Cada pincelada é como um golpe: deve ser calculado, observado, preciso e rápido. Ou a tinta secará antes que possa ser misturada.
– Minha família não aprecia duelos.
– Mas você os acha ao menos divertidos, não?

Os dois fizeram uma reverência medida, e sacaram as espadas. Logo as lâminas se chocaram, e o barulho de metal ressoou no aposento.  Arashi investiu em um golpe longo e demorado, apenas para ser aparado pela espada de Saiki. E como nos passos de uma dança, um media os golpes do outro, completando-se com uma precisão memorável. Seda e metal se cruzavam, indo e voltando, aproximando-se e afastando-se, como os movimentos do mar. Até que Arashi sentiu a ponta da espada na altura do estômago, enquanto pressionava ameaçadoramente a sua lâmina no pescoço do esposo.

– Acho que podemos dar isso por acabado, não? Um empate? – falava o jovem, com uma expressão tranquila e um leve sorriso no rosto.
– Só se pudermos desempatar. Amanhã.
– É uma disputa de um pintor contra uma samurai treinada. Não acha injusto, minha querida?
– Meu forte é com o arco, mas você também deve saber disso. Além do mais, são ótimas oportunidades de nos conhecermos melhor.
– É justo. Agora que tal desarmar-se tanto da espada quanto da alma?
– Desarmar-me…?
– Você estava fechada como uma ostra quando entrou no templo, e agora eu consegui ao menos que duelasse comigo. O que eu preciso fazer para que me deixe beijá-la?

Arashi baixou a espada, com um sorriso envergonhado. Embainhou a espada, e ele fez o mesmo, aproximando-se. Segurou-lhe o queixo delicada porém firmemente,  e seus lábios se tocaram. Longe dali, a lua refletia-se nas correntes do riacho, que seguiam seu destino para o mar.

Cherry ‘n Blood – Parte I

16 out

As nuvens ameaçavam cair sobre a já cinzenta cidade de Chicago. As poucas pessoas que andavam pelo bairro residencial carregavam guarda-chuvas e pesadas capas, o que deixava a visão mais desanimadora. Nicole caminhava sem pressa, os tênis pisando em algumas poças de lama e o cabelo balançando ao vento incomum da primavera.

Gostava de andar enquanto tentava compreender todas as mudanças ao seu redor. Apreciava ver o céu quando estava prestes a chover – fazia-na perceber como era pequena diante de outras coisas. Agachou-se para amarrar os cadarços – por isso que preferia botas – quando um vento forte trouxe um cheiro doce, suave embora impregnante. E poderia ter ficado ali, se uma voz desconhecida e o toque frio do cano de uma arma não a despertasse.

– Se levanta devagar, moça. Devagar como se nada tivesse acontecendo.

Cereja. O cheiro era cereja.

– Isso mesmo, belezinha. Continua andando.

Havia cerejeiras ali? Não conseguia ver nenhuma. Talvez elas estivessem longe. Pensar nas cerejeiras faziam com que não temesse tanto aquele sujeitinho. Era só um assalto, não precisava de medidas drásticas. E se precisasse… ela saberia o que fazer.

– Entra aqui, moça. E nem pense em fazer nada idiota.

Ainda em silêncio, Nicole entrou no beco. Se precisasse recorrer aos seus poderes, era melhor em um beco escuro e deserto do que em uma rua movimentada. Mas talvez não precisasse, talvez fosse só um assalto. Ali não havia vento, mas o cheiro parecia estar mais forte, tomando todo o local. Só então se atreveu a olhar seu agressor. Um rapaz de cabelos compridos e maltrapilho, igual a tantos outros.

– Dinheiro, celular, esse relógio legal… deixa tudo aí no chão.

E então novamente o vento, vindo de lugar nenhum dessa vez. O cheiro ficou cada vez mais forte, mais presente, quase palpável. E então ela pôde sentir: uma criatura de muito poder estava fazendo aquilo. Uma pontada de dor violenta fez suas pernas bambearem, e ela reconheceu tudo: o cheiro, o poder, aquela presença aterradora… um Oni.

– Mas que porra é essa?

A voz do rapaz soava distante agora, conforme a dor de cabeça aumentava. Queria mandá-lo embora, queria arremessar a bolsa longe para que ele simplesmente saísse dali, mas a dor a deixara quase sem forças. Sentia quase como se sua alma estivesse sendo sugada. Abriu a boca, tentando dizer que fosse embora, mas o que ouviu foi um grito alto, forte e aterrador, que gelou-lhe até as raízes dos dentes.

O rapaz olhava para os lados, desesperado, apontando a arma para o nada que o aterrorizava. Os olhos arregalados tentavam observar o nada, e à beira da inconsciência, Nicole podia ver exatamente a direção para onde o Oni seguia. E não era até ela.

Os ventos aumentavam cada vez mais e começavam a tomar forma. Círculos de vento se formavam entre Nicole e o rapaz, que já estava na entrada do beco, com a arma ainda apontada. Aos poucos o Oni foi tomando forma – uma armadura de placas enorme começava a aparecer, imaterial, mas nem por isso menos real ou perigosa. Apesar da dor, Nicole tentava se levantar – impediu que um desses se manifestasse uma vez, podia fazer de novo. E se tinha algo que prenderia a atenção de um oni, era sangue.

E sangue era o que ele buscava. Mas não o daquela tenra jovem recém-desperta para a magia, e sim o daquele anônimo. Barulhos de tiro soaram, mas foram abafados pelo vento enquanto as balas perfuraram o concreto e ali ficaram. Sua risada, no entanto, se sobressaiu a qualquer barulho que pudesse existir ali, conforme Kojiro avançava na direção daquele desconhecido. Suas longas garras trespassaram o corpo do rapaz ao meio, e o golpe que parecia não ter surtido efeito ao primeiro momento, mostrou sua eficácia logo em seguida: a pele do rapaz se abriu em três cortes longos e profundos, o sangue saindo em profusão, empoçando o corpo já sem vida do rapaz.

De joelhos, Nicole tentava realizar o que estava acontecendo. Seus olhos verdes arregalavam-se conforme a poça de sangue aumentava e se aproximava. Tocou no sangue, ainda quente, como se pudesse reverter aquilo.

– Nicole Perazzo, vim aqui por você.

Com as próprias mãos

25 ago

– Você faria o mesmo se estivesse no meu lugar!

Não, Ariene não faria. Mas aquelas palavras reverberavam na sua mente, indo e voltando sem parar. Ariene Crownshield, cavaleira sagrada da Ordem do Cálice Prateado de Siamorphe, não venderia sua honra tentando matar alguém em troca de um punhado de moedas de ouro. Mas será que ela, nascida sem lar, sem ninguém que a ensinasse que valores deveria preservar, não se deixaria levar pela situação?

Segurou entre os dedos o cálice prateado, que usava sempre com tanto orgulho. Apertou-o forte, como se buscasse na deusa uma resposta para essas indagações. Não gostava da sensação de ter a vida de alguém em suas mãos – nunca se achou preparada para aquilo, na verdade. Já presenciara execuções antes – seu pai a preparara desde criança – mas isso não quer dizer que gostava de vê-las. Fechou os olhos azuis com força, como se tentasse apagar a lembrança, mas foi em vão.

**********

– Não vire o rosto, pequena. Seu pai está olhando você.

Quem lhe falava era Tersus, embora a criança não estivesse realmente dando importância a sua voz. Ariene não queria olhar, mas não conseguia tirar os olhos daquele a quem chamavam de traidor. Os ombros estavam caídos e marcas profundas adornavam o seu rosto, compondo o quadro de um derrotado. Não em combate, não em batalha… mas na vida. Profundas olheiras e olhos finos como linhas se esgueiravam pela multidão, como se não conseguissem encará-los. Ariene não desviou o olhar, e teve certeza: ele olhou para ela.

Mesmo nos dias de hoje, não conseguiu entender se ele buscava por ajuda ou pura redenção. Os olhos daquele homem eram de uma inexpressividade descomunal, mas ainda assim intensos como a pior das tempestades. Prendeu a respiração, e então ouviu a voz do seu pai soar acima do cochichar da multidão:

– Você, homem de armas conhecido por Saemon, foi acusado de traição para com seus companheiros de armas. Graças a informações, passada por você a comparsas dos exércitos da velha e corrupta corte, três valorosos guerreiros perderam suas vidas. Entre seus pertences, foi encontrada a quantia de trezentas moedas de ouro, cunhadas pelas formas da corte que você costumava combater. – pausou a fala por um instante, enrolando o pergaminho com as acusações. – O que tem a dizer em sua defesa?

Por um instante, o homem permaneceu calado, assim como a multidão. Seus olhos se viraram para seu acusador, Kelvan Crownshield, e Saemon apenas deu de ombros.

– Nada. Eu fiz tudo o que disse, meu senhor. Apenas me dê uma morte rápida.

A displicência do homem apenas irritou mais o lorde, e Ariene sabia disso. No entanto, ele manteve sua postura. Desembainhou sua espada bastarda, que refletiu por um instante a luz do sol, e disse:

– Pelo poder a mim investido, por mérito e berço, és declarado culpado, homem de armas Saemon.

***

Voltaram para o solar improvisado, em um silêncio quase mórbido. Ariene não conseguia parar de pensar nos olhos inertes daquele homem, e ainda assim tão intensos. E não conseguia também encarar seu pai. Como se adivinhasse seus pensamentos, Kelvan falou:

– Eu tive que fazer aquilo. Aquele homem cometeu um crime que matou três pais de família. É uma questão de justiça. E você deve acostumar-se com isso, minha filha. Um dia, você tomará conta desse lugar.

O silêncio perdurou até chegarem à casa. Ariene viu o pai dar-lhe as costas e dirigir ordens a alguns homens, e só então conseguiu dizer:

– E quem somos nós para julgar quando tirar a vida de alguém?

**********

– Ele não carrega o mal no coração. – disse por fim Arienne, e só então percebeu que demorara a tomar sua decisão.
– Preciso lembrar-lhe, minha noiva, que este homem tentou matar você? E foi uma tentativa premeditada? – a voz de Victarion se fez soar. – De acordo com as leis de Tethyr…
– Nós não estamos em Tethyr. – lembrou Vance, que era a favor de deixar o homem vivo.
– E mesmo de acordo com as leis dos homens do mar, traição a esse nível é passível de punição com morte. Arienne, eu negociei sua vida por duzentas moedas…
– Os deuses decidirão. – a jovem disse, e ouvir sua própria voz a deixou mais segura de si. – Se ele aceitar, largue-o no mar. Não estamos tão longe de terra firme, e qualquer provação que passar será o suficiente para que repense suas ações. Se, do contrário, ele perecer, teremos adiado o inevitável. Agora, se me derem licença, vou para os meus aposentos.

*****

Na manhã seguinte, os homens foram levados para o convés, para receber sua punição diante de todos – o exemplo também era uma ótima forma de coagir os membros de uma tripulação, a capitã lhe explicara. E assim era em qualquer lugar.
Aquele que mentira no intuito de salvar a vida teve uma morte rápida pelas lâminas de Vance. O outro, por sua vez, foi lançado na imensidão do mar, e se sobreviveu ou não a paladina não poderia dizer. No entanto, tinha a sensação de que a justiça, de fato, havia sido feita.

A Queda – Parte 3

5 jun

LEIAM A PARTE 1 AQUI! E A PARTE 2 AQUI!

Aila estava confusa. Havia perecido pela lâmina daquele machado, e claro que faria alguma coisa se pudesse. Mas aqueles eram desígnios divinos: ele receberia seu descanso eterno, assim como ela também. Insegura, a jovem olhou para a mulher, que até então nem se preocupara em dizer o seu nome.

– Mas… esta justiça não deve ser feita pelas minhas mãos. Isso não é correto. Não… não sou eu quem decido isso.
– E se eu disser que a sua morte e a dos seus amigos foi em vão? O exército de orcs ainda se concentra na região, e em breve os elfos da cidade de Sylvan receberão retaliações. Você sabe que eles não poderão resistir. E você poderia evitar esse derramamento de sangue inútil. Não era isso que você queria em vida, Aila Ilindiel?
– Esses assuntos… já não me concernem. – respondeu a barda, embora não estivesse tão segura de suas palavras. – Eu morri em prol dessa causa. Esses fatos… já não me dizem respeito.

Em um ímpeto de coragem, sentido estar indo contra todas as suas vontades, deu as costas à desconhecida. Não sabia quem ela era, mas parecia uma criatura celestial – as feições harmoniosas, agora entristecidas, apunhalavam a barda. Sentia como se tivesse ferido uma beleza até então imaculada, até que novas palavras da mulher alada a fizeram parar mais uma vez:

– E se eu disser que o seu irmão gêmeo, Alexander Ilindiel, também pereceu do mesmo golpe que tirou a sua vida?

Então se recordou do par de anéis de platina que comprou com a insistência do irmão. Em questão de segundos lembrou-se da prece que Alex havia feito, momentos antes de iniciar o combate, explicando que os ferimentos que Aila viesse a sofrer seriam partilhados por ele.

“-E não pense em protestar. Quero proteger você.”

– Você está dizendo… que… ele morreu… por minha causa…?

A mulher não respondeu, e nem precisava fazê-lo. Mais uma vez, Aila levou a mão ao local onde deveria estar o ferimento, e imaginou a dor que seu irmão, um guerreiro santo, treinado para servir a Torm, sentira. E a morte dele teria sido tão vã quando a sua.

– Ele… está aqui? Nesse lugar?
– Sim, está.
– Leve-me até ele! Leve-me até ele e… e então terá sua resposta.
– Infelizmente, as coisas não funcionam assim, Aila. Meus patronos lutam pela justiça verdadeira. A justiça que você também deseja. Você não deve me temer.

Passaram-se alguns minutos de silêncio que pareciam se estender por uma eternidade. Estava dividida entre o que acreditava ser a ordem celestial e o que seu coração desejava. Queria ser capaz ignorar aquele pedido, mas quem quer que tivesse mandado aquela mulher parecia compartilhar dos desejos de Aila. Respirou fundo e quebrou o silêncio que perdurará até então:

– Eu aceito. Leve-me até meu irmão.