Arquivo | janeiro, 2011

Um inferno especial – Parte 1

21 jan

– Eu não tenho realmente escolha, não é?
– Isso não é uma democracia.

Ela revirou os olhos, entediada. Olhou para a mochila surrada, que a acompanhara em tantas viagens por aí. Ao invés de roupas e cobertores, dessa vez levava livros e cadernos. Tudo parecia um passado distante agora.

– E eu também arrumei um trabalho pra você. Pra depois da aula. Lembra da Shelly?
– Claro, ué. É a dona da lanchonete ali embaixo, que te olha como se você fosse a última garrada de água do deserto. Ela comentou mesmo que queria uma ajuda pra servir as mesas.

Não olhou Gregor de volta porque não quis encarar o olhar reprovador em resposta, embora pudesse senti-lo ainda assim. Ele não era de muitas palavras, mas com o tempo, Kate descobriu que não precisava muito delas. Os olhares e as sobrancelhas falavam muito mais.

– Você vai continuar caçando. – declarou, a mão prestes a abrir a porta do carro. Quatro anos de convivência eram o bastante para entendê-lo, em partes. – E tudo isso é pra eu ocupar meu tempo, não é?
– O que eu quero é uma vida normal para você. Faculdade, trabalho, casamento talvez, essas coisas. Ou você quer terminar como eu? – uma pausa, breve, de quem quer encerrar o assunto. – Repasse a história que combinamos.

Suspirou, desconsolada. Talvez se ela reprovasse miseravelmente nos testes da escola, ele desistisse. Olhou para o prédio – em letras garrafais, uma placa anunciava seu destino: Northwest High School. Outros jovens se dirigiam ao prédio, conversando animadamente. Se sentia em um filme de comédia colegial, em que atores de 25 anos fingiam ter 17. Esperou alguém sair de uma porta cantando uma música sobre como é bom estar de volta às aulas, e sorriu do próprio devaneio.

– Você vai ser meu tio, casado com a irmã da minha mãe. Meus pais morreram em um acidente de carro, e foi onde eu consegui a cicatriz. – falou, apontando a marca no antebraço, parcialmente encoberta com uma munhequeira.
– Certo. Eu vou viajar. Até o final da semana, estou de volta. Até lá, misture-se. Faça coisas que pessoas da sua idade fariam. Você sempre foi boa em fazer bobagens.
– Um inferno especial, Gregor. Um inferno especial para você.

Bateu a porta do carro e encarou mais uma vez o prédio. As janelas eram grandes e envidraçadas. Sentaria do lado de uma delas, pois se tudo desse errado, poderia tentar sair correndo feito uma louca. Viu os grupinhos se formando nos arredores da escola: os valentões do time de futebol; as líderes de torcida cochichando; os nerds e seus casacos de flanela; e os undergrounds, com piercings e cores de cabelo gritantes. Segurou a alça da mochila com força, apreensiva. Tinha certeza de que não pertencia a nenhuma das panelinhas. E aquilo a angustiava.

Deu os primeiros passos pelo caminho de blocos de concreto que davam para o corredor principal da escola. Era a novata, afinal de contas. O discurso sobre se misturar martelava-lhe a cabeça, mas Kate não fazia ideia de por onde começar. Respirou fundo e continuou a caminhada, mais resoluta. Oras, ela era a novata, afinal de contas. Não demorou para que os primeiros olhares viessem em sua direção – a maioria de rapazes. Sorriu levemente para alguns e continuou. Era um começo.

– Você que é Katherine, certo? Meu nome é Mark. E eu vou ser seu guia.

Não conseguiu esconder a surpresa no olhar, tanto pela aparição repentina quanto pela aparência do rapaz. Magro, usava uma calça justa e tantos piercings que a jovem se perguntava como cabiam tantos em uma orelha só. Um cabelo loiro pálido emoldurava o rosto muito branco do rapaz, que com um olhar mais atento, era possível perceber que usava maquiagem.

Maquiagem? Kate não usava maquiagem há tanto tempo que não conseguiu deixar de reparar. Onde esteve que a moda mudou tanto?

– Hm, praz-
– Essa é a escola, e aquele é o seu grupinho. – interrompeu, apontando para as garotas que pareciam saídas de As Patricinhas de Bervelly Hills. – E fim do tour.

Algumas escolas tinham programas de recuperação de notas através de “serviços prestados à comunidade escolar”; era um modo de “integrar o aluno à instituição”, ou qualquer baboseira desse tipo. Olhou mais uma vez para o grupo de garotas que conversavam sérias entre si – talvez uma delas estivesse até chorando – e teve a profunda certeza de que, se tivesse um grupo, não seria aquele.

– Eu agradeço a explicação contundente, Mark. E pode ter certeza de que vou falar muito bem de você para a supervisora escolar. – a ironia ela clara, e um leve sorriso decorava o rosto da jovem. – Mas que coincidência, não é a senhora Wellow que vem ali?

Uma mulher que passava dos cinquenta anos se aproximava, vindo da parte administrativa. Trazia um semblante carregado, mas que logo amenizou ao ver a jovem. Com um pouco mais de um metro e meio, a senhora andava a passos rápidos, os sapatos de salto ressoando no chão. Trazia o cabelo preto rigorosamente preso em um coque alinhado, e uma blusa de botões lisa completava o conjunto. Uma saia marrom, na altura do joelho, deixava entrever a meia calça que vestia para encobrir as marcas da idade.

– Vejo que já conheceu seu guia, srta. Carter. – ela sorria, aquele sorriso fabricado para os alunos novatos no início do ano. Parecia cansada e abalada. – Senhor Sullivan, já está ciente de suas atribuições para com esta jovem, não?

O rapaz olhou para Kate antes de se voltar para a supervisora, um olhar de puro ódio. A garota apenas sorriu em resposta, divertida. Não era seu tipo, mas causar um pouco de sofrimento a outra pessoa deixara-a sadicamente feliz. Escutou o rápido diálogo entre os dois, sorrindo sem mostrar os dentes, e foi com o mesmo sorriso que ouviu Mark dizer:

– Vadia.

**********

Uma grande foto, emoldurada por uma coroa de flores, fora instalada no corredor de entrada. Uma moça sorridente, com cabelos claros de cachos grandes recebia os estudantes que chegavam. Acima dela, com uma caligrafia caprichada, lia-se: “Memorial em nome de Susan Marshall”. Na mesa abaixo da moldura, também decorada com flores, vários cartões e mensagens. Aquele era o motivo para as estudantes chorosas, então. Sem pensar muito, pegou um dos cartões empilhados, que traziam escrito: Deixe aqui sua mensagem”.

– O que você quer comigo, afinal? – a voz de Mark a arrancou dos pensamentos. – Não sei se deu pra sacar, mas eu não sou da sua galera.
– Acredite, eu queria não estar aqui. Muito menos com você. Mas se você vai ganhar alguma vantagem às minhas custas, vai ter que trabalhar pra isso, gostando ou não. Pode começar me dizendo quem era a moça.
– Além de metida você é analfabeta? Não sabe ler?
– Você não quer que eu faça um mau relatório a seu respeito, mané.

O rapaz sorriu, embora Kate não conseguisse identificar o que ele estivesse querendo dizer. Teve vontade de enfiar um soco nas fuças daquele idiota, mas problemas desse tipo no primeiro dia de aula não lhe soavam nada “normais”. Segurou a alça da mochila e começou a andar, e então ouviu-o falar:

– Era uma das líderes de torcida. Morreu num acidente de carro, na saída da cidade. Satisfeita agora?

Kate não respondeu, mas olhou mais uma vez para a foto. Tudo fazia sentido agora. Primeiros dias de aula são conhecidos por trotes sem sentido, que normalmente terminam com alguém no hospital. Aparentemente, o único trote que sofreria era do destino, colocando Mark como seu “guia”. Guardou o cartão com cuidado no bolso externo da alça.

– Até quando eu tenho que aguentar você? – perguntou, andando em direção à sala.
Eu tenho que aguentar você até o final da semana.

Cinco dias. Greg fora da cidade, provavelmente fazendo alguma coisa muito mais divertida e perigosa, e ela fingindo ser uma estudante normal vinda do Texas. Pelo menos ainda tinha o sotaque.

**********

Sentia frio, muito frio. Durante muito tempo vagou na escuridão, passando por lugares tantos que perdeu a noção de si. As memórias eram confusas, assemelhando-se a um mosaico incompleto e truncado. Entre diferentes cores e tamanhos, tentava montar algo que fizesse sentido.

E então uma dor imensa, perfurando-lhe o braço esquerdo. Uma, duas, três vezes. Contínua, cortante, inmensurável. Mais intensa do que… há quanto tempo tinha acontecido?

Gritou alto e profundamente, como nunca achou que conseguisse. Ele a trouxera até ali: um lugar escuro, apertado e claustrofóbico. Seu braço doía, mas não estava ferido. Como era possível?

E então, olhando para si, no chão, compreendeu. O mosaico ganhou forma em sua mente e a raiva possuiu sua forma tão real e tão efêmera.

Aquele homem a ajudaria, mas queria favores em troca.

Não importava. Teria sua vingança.

  • Início do projeto Hunter High School. =D
  • Desenho da talentosíssima Camilla Guedes. Dêem uma olhada na galeria da moça AQUI!
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Resenha – Enrolados (Rapunzel)

16 jan

Frigideiras são ótimas armas. Não as subestime.

Semana passada vi Enrolados (a adaptação Disney de Rapunzel), e preciso dizer que gostei. Não do 3D, que também não é tão decepcionante quanto o de outros filmes, mas o resto é bem legal. Exceto a dublagem do Luciano Huck, claro.

O filme é bonito, embora eu não acho que devesse esperar menos da Disney. A longa experiência do estúdio com animação já rendeu muita credibilidade à técnica utilizada nos filmes. Os movimentos dos personagens são muito fluidos, os cenários são exuberantes, e os cabelos ficaram muito bem feitos. A técnica é algo que surpreende no início e, apesar de alguns terem estranhado o tamanho dos olhos de Rapunzel (com os quais eu não vi nenhum problema), achei que a transposição do estilo Disney de desenhar para a CG ficou muito bem feita, mantendo as características que o tornou tão marcante e facilmente reconhecível.

O filme é muito divertido. Em relação ao conto original, várias adaptações foram feitas, mas isso não chega a ser realmente novidade no histórico do estúdio. Na verdade, até me arrisco a dizer que foram mudanças feitas para melhorar a história, e torná-la mais atrativa. Rapunzel é, na minha humilde opinião, um dos contos mais sombrios e explícitos entre os contos de fada que conheço. Uma transposição mais literal não seria bem sucedida como filme para diversão e, certamente, não estaria nos planos do estúdio.

Era o nariz do Luciano Huck, com certeza.

O que eu mais gostei de ver, entretanto, foram personagens mais dúbios: a ambivalência e o conflito bem/mal prevalecem (você esperava outra coisa?), mas eu senti uma presença maior de ambiguidade, de motivações pessoais. O mocinho é um ladrão bonachão, metido a conquistador, mas que no final reconhece na Rapunzel ingênua e delicada; a madrasta (famosas madrastas!) não é flor que se cheire, mas não é realmente aquela vilã saída das profundezas de um caldeirão mágico, moldada para o mau. Ponto positivo!

A ingenuidade de Rapunzel, entretanto, pode cansar. No início é divertido e engraçado, mas a recorrência disso acaba minando um pouco a presença da personagem. Claro que, por ter ficado trancada em uma torre por dezoito anos, isso é plenamente justificável, mas admito que Fiona de Shrek, bem como Tiana de A Princesa e o sapo devem ter me estragado nesse sentido. Não é nada que estrague o filme, de forma alguma!

"Sua mãe sabe mais!"

A forma como o filme fala, tanto para pais quanto para filhos, é também muito interessante. Rapunzel vive um conflito pelo qual todos passamos: o momento de ganhar maior independência dos pais. O medo de decepcionar a si e aos pais, a insegurança de um mundo que se abre cheio de possibilidades e armadilhas, o desejo de ganhar asas e ver-se livre das restrições, tidas como exageradas. A madrasta também, afinal! Ela mantém, por motivos puramente egoístas, a heroína isolada do resto do mundo, e tenta mantê-la presa ao lar de todas as formas. Essa é uma representação extrema, claro, mas a mensagem é clara: filhos são para o mundo, não para si. Com a orientação adequada, essa fase pode ser superada de maneira feliz.

Em suma, é um bom filme, com animação exímia e situações que vão arrancar boas risadas, além de vários “Ooooww”. Recomenda-se assistir com uma criança por perto. Torna a experiência muito mais proveitosa.