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Talking Bad – minha jornada com Walter White

11 fev

{Aviso de conteúdo: palavrões, spoilers, movie stuff e provavelmente algo que pode incomodar mas que eu não estou conseguindo lembrar agora, como opiniões}

Fazendo já clara referência e homenagem à série que eu acabei de assistir (pra não dizer que foi um plágio descarado, porque “Talking Bad” foi o nome do programa exibido depois do final da série, que eu não cheguei a ver), resolvi esboçar alguns dizeres nem um pouco acadêmicos sobre Breaking Bad, série de TV produzida pela AMC, criada por Vince Gilligan e cujo título não me atrevo a traduzir. A não ser que fosse algo como “Tocando o foda-se”.

Breaking-Bad-Heisenberg

Imagine a trilha de abertura tocando agora. Não, eu não vou imitar.

Apesar de toda a divulgação e a empolgação de vários amigos sobre a série, demorei a começar a ver por motivos que eu não saberia rastrear. E acho que um dito popular não poderia ser melhor aplicado como “tudo a seu tempo”. Comecei a ver quando tinha que ser. Se tivesse acompanhado a série conforme os episódios iam ao ar, talvez não tivesse terminado.

Breaking Bad demora um tanto para acordar você, como aquele dia que você sai de casa morrendo de preguiça de caminhar, e aos poucos, acostumado à ideia de estar acordado, começa a seguir seu passo habitual, às vezes apressado, às vezes apenas mantendo-o para chegar no momento certo. E seu caráter dramático não é aquele que faz você pular da cadeira a cada episódio – é um drama cotidiano, prosaico, quase privado, familiar. Fala de corrupção pessoal, de mudança e perda de valores, sobre justificativas e motivações, e, principalmente, sobre até que ponto somos capazes de aceitar os malfeitos de alguém quando eles nos parecerem justificados o bastante. Breaking Bad, como sua principal metáfora – a química, é sobre mudanças.

Apiedei-me do drama de Walter: diagnosticado com câncer em um país onde não existe saúde pública, ele sente que, além das esperanças mínimas de sobrevivência, deixará sua família na falência financeira. Como maneira de conseguir fazer dinheiro e deixá-los em relativa estabilidade, o professor de química pensa em fabricar metafetamina. Para isso, ele se associa com um ex-aluno seu, o jovem viciado em drogas Jesse. A partir daí, tentando levar uma vida dupla, os problemas começam a se relacionarem e a escalarem a pontos inimagináveis no início da narrativa. E desse processo, ninguém sai incólume.

Breaking Bad apresenta, com o passar das temporadas, peças soltas de um quebra-cabeça que, ao final, se encaixam com precisão e naturalidade. Diferente de um encaixe perfeito, no entanto, ele se parece mais como um mosaico meio opaco em três dimensões: pedaços irregulares formando um todo complexo e multifacetado, com tons que mudam conforme o ângulo do qual se vê, e faces que se ocultam e se mostram de acordo com o lado que o espectador olha.

E falando sobre ângulos, há o rico aspecto técnico: ângulos criativos e simbólicos, que falam mais de uma situação do que seus próprios personagens; pontos de vista inusitados, como o de um galão de gasolina encarando seu portador Walter em um contra-plongée, entre outros. Já vi textos que comparam a linguagem de Breaking Bad com o cinema, mas sem a pasteurização habitual da TV, e acho que devo concordar. Há planos poderosos, em que o visto fala muito mais do que qualquer texto, como o meio rosto de um bebê em prantos se escondendo apavorado com você, espectador. Há omissões necessárias, em que mortes são explícitas, mas somos poupados de vê-las. Há outras, porém, chocantes e muito claras, que, assim como ao protagonista manipulador, têm um claro propósito de mandar uma mensagem, mostrando a que a série veio.

E conforme a série evolui, seus feitos escalam. Novos personagens aparecem, outros se quebram, alguns se regeneram. Walter White passa por tantos tons morais que, ao final, você sabe que ele é qualquer coisa, exceto puro como seu nome poderia indicar, assim como nós, que não somos nem bons, nem maus.  Depois da piedade ao protagonista, depois do reconhecimento de sua coragem ao fazer sua primeira vítima, por suas próprias mãos – porque, ao meu ver, para tirar a vida de alguém é necessário muita coragem – veio a raiva. Tive a percepção que ele seguiu no tráfico porque queria, porque gostava. E como eu o detestei por isso, Walter White. Como o odiei, como nutri raiva pelos estragos que você fez com aqueles ao seu redor pelo orgulho não-admitido.

breaking-bad-all-characters

Voltei meu carinho, então, aos outros personagens. Sua esposa, Skyler – e até ela me decepcionou com uma frase demolidora, embora suas razões estivessem claras como cristal -, seu cunhado, Hank. Jesse, o personagem que mais chorou na série inteira, e, surpreendentemente, o mais capaz de empatizar com os outros. O adolescente incapaz de largar seus vícios costumava ser o anjo da consciência, que lembrava vez ou outra: “precisamos fazer isso?”. E mesmo essas pessoas não eram infalíveis. Assim, também, como nós.

E veio o final, uma montanha russa sempre decadente de consequências naturais aos atos. Quantas vezes não gritei em pensamentos – e até verbalizei – “Alguém, por favor, mate Walter!”? Até que Hank, o policial gordinho e careca, deu-me a resposta: “Ele não pode se livrar tão fácil assim”. E não se livrou. Ao final, porém, ainda me pergunto se Walter White me ganhou de volta. No único momento em que ele nos fala a verdade, a total verdade sobre si mesmo, não sei me posicionar sobre sua redenção – se é que há alguma redenção. Mas a jornada chegou ao fim, e a mim, cabe apenas matutar a respeito. Quem sabe, um dia, eu consiga discernir meus próprios sentimentos em relação a Walter White.

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A morte da autora

26 jan

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– E então, o que fazemos agora?

Katiane olhou para aqueles ao seu redor. Nem em um milhão de anos teria pensado em uma reunião tão bizarra – e ela que achava que a sua história era bizarra, inconsciente e sem sentido. Na sua frente, a mulher de cabelos castanhos, óculos quadrados e roupas de pelo menos cinco anos jazia inconsciente. Estava completamente à mercê deles.

– Peraí, a gente não vai dar uma de Frankenstein, né? – perguntou uma outra, que afastava o cigarro fumegante com um braço metálico. Vinha de uma história de ficção científica cyberpunk, e tinha um nome que parecia uma onomatopéia. – Aquela besteira toda de se voltar contra o criador e tudo o mais?

– Frankenstein não era o monstro, era o cientista – corrigiu Katiane, impaciente. – Não me pergunte como eu sei disso, ok? Só fui escrita assim.

– Apesar de eu adorar o tropo literário criatura contra criador, – uma voz suave levantou-se, e uma moça loira, jovem e muito bela saiu das sombras. Nas mãos, ela trazia uma pequena harpa, e no rosto, estava armada de um sorriso plácido. – eu não acredito que esse deveria ser nosso caminho. Alguém nessa assembleia se perguntou o que aconteceria conosco se ela perecesse? Afinal, somos criações dela, e só existimos aqui, não?

Um momento de silêncio, enquanto a moça se sentava, triunfante. Mais seres, entre outras mulheres, ora usando armaduras de metal, alguns poucos homens, e outras criaturas que pareciam ter saído de algum compêndio bizarro se aglomeravam. Como cabia tanta gente na cabeça daquela mulher?

– Eu acho que a gente faz “puf”, né? Tipo, desaparece, zé-fi-ni?

– Seria c’est fini – uma outra moça, de formas arredondadas, apareceu do nada. Ela guardava uma semelhança assustadora com a mulher adormecida, embora tivesse uma aparência catunesca. – Eu aprendi umas palavras em francês, e pareço legal, mas sou revisora. Ei, não me olhem assim, vocês realmente achavam que ela não tinha uma espécie de auto-representação na cabeça dela? Quem vocês acham que organiza essa bagunça toda aqui? Fantasmas invisíveis?
– Ei, senti uma pontada de preconceito contra nós, seres incorpóreos. Temos nosso espaço aqui também!

E a algazarra começou. Problemas começaram a ser comparados – o tempo em inatividade de cada um, esquecidos naquele multiverso variado e sempre inacabado; os péssimos textos escritos, ou aqueles que tinham ainda seu valor; os que foram reescritos e revisados se colocando acima dos outros, abandonados ainda em forma de rascunho. Os ânimos se exaltavam, a algazarra aumentava e antes que se alguém tentasse argumentar, uma horda de personagens fictícios marcharam em direção à mulher que dormia um sono leve.

Pararam diante dela, incertos. Valeria a pena? E o que aconteceria com eles? Estar em um limbo de personagens não escritos seria um destino melhor do que uma espécie de pós-vida de ficções perdidas?

Não seria dessa vez que descobririam.

—–

– Eu tenho certeza de que não foi isso que Roland Barthes quis dizer com “A Morte do Autor”. Mas fica a referência e a recomendação aí pra quem interessar.

– Que 2014 seja um ano criativo. E melhor que esse texto (o que não deve ser muito difícil).

– Créditos da imagem: desenhos de Camilla Guedes.  (portfolio)

Tag/Meme/Caderno de perguntas.

6 mar

Oi, tudo bem? Como vão vocês?

O lugar, claro, está um lixo. Recoberto de teias de aranhas e, se eu procurar bastante, vou achar umas traças e outros bichos desagradáveis por aí.

Como fui obrigada ameaçada coagida persuadida a seguir esse meme por uma *insira aqui palavras de baixo calão* amiga, resolvi aparecer e postar umas perguntinhas básicas e irrelevantes sobre o blog, que eu não atualizo a eras geológicas.

1- Qual o nome do seu blog? E que assuntos ele aborda?

Brainsstorm, com SS, porque algum sacana pegou esse domínio do wordpress e nunca atualizou. Aborda qualquer coisa que eu ache conveniente, entre os quais destaco literatura, cinema, opiniões irrelevantes sobre o resto mundo e afins.

2- Como escolheu o nome do blog?

Ideia de um amigo meu, Italo. Eu ia usar algo bem clichê, como Mais um blog de Allana, mas ele achou que Brainstorm parecia comigo. E cá estamos.

3- Porque você criou o blog?

Se eu descobrir, aviso.

Ok. Eu queria um espaço meu, que não dependesse de nenhuma “linha editorial”, e que eu pudesse fazer uma das coisas que eu mais gosto da vida, que é escrever. Sobre o que quer que eu quisesse. E apesar de eu abandoná-lo a maior parte do tempo, vem funcionando razoavelmente bem.

4- Onde você encontra inspiração para as postagens do blog?

Atualmente, em lugar nenhum. Se eu encontrasse, postaria mais, creiam.

5- Qual o público que mais acessa o seu blog, masculino ou feminino?

Não tenho a menor ideia. E nem faço muita questão de saber, na verdade.

6- Além do blog exerce outra atividade? Se sim, qual?

Sou secretária executiva na UFPB, recentemente ingressei no doutorado em Letras pela mesma instituição, sou leitora carnívora de romances, livros e quadrinhos, jogo RPG, tento manter uma rotina de exercícios, criadora de mundos utópicos, e presidente de uma associação imaginária de personagens de ficção. Ok, a última é mentira.

7- Em quais redes sociais você divulga o seu blog?

Facebook e Twitter, em caráter muito eventual.

8- Quando você começou o blog, enfrentou algum tipo de problema?

Nos primórdios da blogagem, tive medo de me expor muito. Hoje ainda enfrento um tanto disso, mas é muito mais paranoia que outra coisa.

9- Atualmente, qual a sua dificuldade em manter o blog?

Assunto, inspiração e tempo. Não nessa ordem.

10- Você incentiva outros blogs que estão começando, escrevendo comentários positivos ou inscrevendo-se no blog?

Sinto que deveria, mas não. Raramente comento por não achar que aquilo vale a pena ser dito.

11- Como você administra o seu tempo para poder dedicar-se ao blog?

“Se dedicar ao blog” e “Allana” numa mesma frase, não existe.

12- Ser blogueira é uma profissão?

Tem quem diga que é, né? Não pra mim, definitivamente. Não teria a disciplina ou a criativade de fazer disso uma profissão decente.

13- Como você lida com as críticas?

Normalmente, bem. Mas ando muito desgastada de discussões, então, se eu tiver contato privado com a pessoa, costumo levar uma boa conversa.

14- Qual a sua experiência mais agradável e a sua experiência mais desagradável em relação ao blog?

As agradáveis são sempre relativas aos comentários dos textos de ficção que eu escrevo. Gosto de feedback, gosto de ver as impressões dos leitores compartilhadas. Mas a verdade é que eu sou péssima de marketing pessoal, e não sei bem como fazer isso. xD Quanto às desagradáveis, não teve nada que valha a pena comentar, mas não estou isenta delas.

E eu vou poupar as gerações futuras de repassar isso para alguém. :p

Errar é humanas. Permanecer no erro é exatas.

5 out

Tropecei essa semana nessa notícia, e fiquei matutando aquilo no meu tempo livre. Não discordo dos dados apresentados, nem da necessidade de mão de obra qualificada nas áreas de ciências exatas que se configura no país, mas o que me assombraram foram os comentários.

“Interpretar um texto é mais fácil que resolver uma equação matemática”

Vejam essa pérola da sabedoria! Parafraseando uma amiga, então fale-me mais sobre a qualidade infalível da nossa educação hoje em dia. Interpretar um texto é, certamente, mais fácil para mim, que, além de ter uma grande afinidade com a área, tem também alguma experiência no assunto.  E, preciso salientar, sempre tive uma enorme dificuldade em desenvolver raciocínios lógico-matemáticos, desde os primeiros anos de estudo.

Não, eu não acredito em talento nato. Ninguém nasce sabendo de nada, seja desenhar, cantar, dançar ou escrever. No entanto, todos temos afinidades, áreas que nos interessam mais e que nas quais vamos procurar desenvolver melhor nossas aptidões.

E, pasmem, há não muito tempo atrás eu cheguei a soltar uma pérola de sabedoria semelhante, mas no sentido contrário. “Em exatas você sabe o que esperar; ou você chega naquele resultado ou não. Em humanas, não é assim. Você faz e torce para estar certo”. Daí levei um tapa na cara moral de um amigo (que dificilmente vai lembrar dessa conversa) e me toquei da bobagem que estava dizendo.

Hoje agradeço por haver pessoas interessadas e dedicadas na área de exatas, que me permitem usar os produtos inventados por elas. Assim como agradeço aos pedagogos, com seus estudos sobre o ensino; aos historiadores, que desencavam essas coisas tão legais e interessantes de se estudar; dentre outros. E destaco: profissionais qualificados são importantes em qualquer área: letras, sociologia, antropologia, história, física, matemática, engenharia, computação e tantas outras. E um profissional qualificado não dominará apenas a sua área de conhecimento. De que adianta um programador que não saiba escrever um e-mail para um cliente? E não adianta dizer que, por escrever em Java, você não precisa conseguir se expressar. Tenho medo do dia em que você for tentar vender um produto dentro de uma empresa.

Lembro-me também de uma outra conversa, essa há (minha nossa!) quase 10 anos atrás, quando eu passei no vestibular para Letras. “Mas, Allana… Letras?”. Eu dei de ombros e sorri: “É, eu sei, vou ser professora e pobre”. E véi, na boa, não me arrependo não. E até onde eu sei, nem os alunos que tropeçaram em mim no caminho.

Cinco músicas ruins que eu gosto

8 maio

Baseando-me em um post de Vinícius, resolvi compartilhar meu terrível gosto musical enumerando as cinco piores músicas que eu gosto. Sei que todo mundo tem isso, por mais que não tenha coragem de admitir: existe aquela música que assombra seu celular, ou sua playlist no computador, e você não tem coragem de exorcizá-la porque gosta dela de verdade.

Certo? Certo? Não…? Okay… .__.

1. Livin la vida loca – Ricky Martin

Quem me trouxe essa música de volta dos confis obscuros da adolescência foi Shrek 2, há uns bons anos atrás. Daí é uma presença mais ou menos constante na minha playlist. Pela batida, pelo ritmo, pela mistura tosca de espanhol com inglês.

2. Everybody’s fool – Evanescence

Outra música zumbi dos recônditos dos anos teen. A verdade é que tem outras músicas do primeiro CD de Evanescence que escuto até hoje, mas como queria ampliar meu leque de músicas ruins, resolvi usar essa como exemplo.

3. Cities of the future – Infected Mushroom

Essa música, pra mim, representa todo um feeling cyberpunk: a batida rápida, as variações de ritmo, e serve de trilha sonora perfeita pra maioria das coisas cyberpunk que eu leio. E o pedacinho de letra dela também tem tudo a ver. Mas que eu não veria isso ao vivo, hmn, não veria.

E convenhamos, não é todo mundo que curte um psytrance loucão, né?

4. Driving to nowhere – Hadouken

Piadas a parte (Shoryuken!), conheci essa banda através do meu namorado, Nino, e é outra que não sai dos dispositivos móveis. Eu não sei se é exatamente ruim, mas como música eletrônica sofre diversos tipos de ojeriza randômicas, resolvi listá-la aqui. Gosto do ritmo, da batida, e penso em pelo menos três começos de pequenos contos quando escuto essa. Um dia escrevo.

5. Girl’s not grey – AFI

Porque eu gosto de cantar arruinar essa música no Rock Band.

UPDATE:

6. Miss Independent – Ne-Yo

Gosto de clipes com historinha, gosto de músicas com uma batida diferente, e não costumo gostar de rap e adjacências musicais. Mas tenho um irmão mais novo (aquele que você sempre culpa por quebrar o que quer que seja na sua casa) que tem um gosto um tanto terrível diferente do meu. E entre os cantores do ramo, gosto de pensar que Ne-Yo é o menos mal. Na verdade, isso é só desculpa e eu gosto dessa música.

7. Killing Loneliness – H.I.M.

Traduz essa música e Reginaldo Rossi canta lindamente, ao lado de Joelma do Calypso. E olha pra esse cara. Precisa de mais?

8. Head up high – Firewind

Jogue algumas palavras-chave num saco, balance, puxe algumas e você tem uma música de Firewind (que foi muito feliz em um cover de Maniac). Certeza que eles fizeram álbuns inteiros assim, brincando de Bingo do Metal.

9. Savior – Rise Against

A vantagem de ouvir Rise Against é desligar o cérebro e deixar tocar no player aleatoriamente. As músicas são todas iguais, não? E alguém pode me dizer qual é a da polga de bichos de pelúcia?

10. Misery Business – Paramore

Quanto mais eu vejo esse clipe, menos sentido ele faz. É um ciclo vicioso, certeza.

Celulares e a invasão de privacidade

12 abr

Verdade seja dita, nunca gostei muito de celulares. Quando comecei a trabalhar – e, por conseguinte, passar o dia fora de casa, numa fase tão tosca idílica que é a adolescência – meus pais tentaram me empurrar um aparelho herdado por eles. Foi um hábito difícil de adquirir: eu esquecia o bendito em casa, desligava para assistir às aulas e esquecia de ligar quando saía, colocava no silencioso e não lembrava de olhá-lo…

Tudo bem que o aparelho era um trambolho: ele já estava ultrapassado quando me passaram a herança. Tecnologia, essa danadinha, sempre fazendo você desejar o último lançamento do que quer que seja. Mas não era por uma vaidade adolescente imbecil (bem, eu era adolescente, e certamente era imbecil, mas não a esse ponto). O que eu realmente detestava era a capacidade que o celular dava aos outros de me encontrar em qualquer lugar, a qualquer momento, e a suposta obrigação em atendê-lo.

Eu, menina revolucionária, via apenas a opressão naquilo, e as reclamações de quando eu não atendia celular. Os perigos do mundo exterior não tinham entrado ainda na cabecinha vazia – é fácil passar o dia fora, experimentar alguma liberdade e não avisar aos pais que você vai sair com uns colegas de sala para almoçar. Na minha mente simplista, todo mundo sabia onde eu estava: ou no trabalho, ou na escola, ou em casa. Não me ocorria que, caso eu passasse mal, sofresse algum acidente ou qualquer coisa parecida, podia ligar para os meus pais chorando e pedindo para alguém me buscar. Pensava no celular como um invasor do espaço individual, e continuo achando.

Evito ligar para pessoas porque, intimamente, sinto estar incomodando. Sou eu quem quer falar com você, e não o contrário. Essa pessoa pode estar dormindo, divagando no banheiro, tendo momentos íntimos com namorado(a), e tá lá o bendito do celular tocando. Ligo para meus chefes porque não tenho lá muita escolha (questões urgentes que demandam a comunicação, por exemplo), e porque eles me deram essa liberdade. Mas não o faço de bom grado, e posso listar diversos exemplos.

Já me ligaram de duas e meia da manhã (me acordando de um sono muito bom, devo destacar) alegando que tinham anotado meu número em um programa de rádio. Obviamente mentira. Ou o sujeito tinha trocado um dígito e a azarada fui eu, ou é algum infeliz sem coração para ligar de madrugada para mim. Pior foi saber que, depois de umas frases mal educadas, ele ainda insistiu em me ligar. Salvei o número como “Não atenda nem no apocalipse zumbi” e passei a ignorar as chamadas.

(Tenho alguns números salvos na agenda com alcunhas semelhantes, como “Cara chato vendedor de seguros”. Nem lembro de todas as ocorrências, mas quando vejo um “não atenda”, silencio o toque e continuo a fazer o que quer que eu esteja fazendo. E vivo muito bem, obrigada).

Uma colega já deu meu número como referência para o financiamento do carro, e me ligou por volta das seis da manhã de um sábado para informar o fato. Mais uma vez, eu estava dormindo, e de uma daquelas noites bem tardias. Sorte dela que a financeira nunca resolveu me ligar; de vingança, diria que nunca a vi na vida. Ou que era uma caloteira, coisa parecida. Seria criativa.

Há ainda os cassos clássicos que de tão corriqueiros aprendemos a ignorar: no cinema, na aula, e longe da sua casinha de sapê. No meio de uma reunião, você esquece de ativar o modo silencioso e o tema de Game of Thrones toca nas alturas. Seu chefe, simpático, pergunta: “Ah, você assiste também?”. Incovenientes cotidianos que minam sua boa vontade e seu bom humor. Pelo menos, o meu bom humor.

Há quem diga que isso é falta de educação. Penso que, na verdade, a fina arte da etiqueta não estava pronta para receber essa possibilidade de conexão entre as pessoas, tão imediata, tão possível em qualquer lugar. Mas consensos surgem a partir de necessidades, não de possibilidades. E se não começarmos a nos policiar, a tendência é sempre piorar.

Representação do feminino em Disney

30 nov

Porque mesmo contos de fada podem se atualizar…

Que eu adoro desenhos animados não é nenhuma novidade – tenho uma criança de 24 anos dentro de mim que espero conseguir manter pro resto da vida. Que ela amadureça e aprenda com as experiências por vir, mas que não perca a capacidade de se envolver e se encantar com contos de fada.  Mesmo quando eles se tornam seus objetos de pesquisa.
E em vésperas de estreia de Rapunzel 3D (sim, faz tanto tempo assim que não atualizo o blog), e enquanto escrevo sobre a primeira princesa Disney, Branca de Neve, me pego pensando em como meios de reprodução cultural conseguem se atualizar, embora mantendo o “politicamente correto” e continue propagando a defesa de certos valores.

Isso não é bem politicamente correto...

Para tanto, basta levar em conta o recente A Princesa e o Sapo (2009) e o Branca de Neve e os Sete Anões (1937) (uau, 72 anos!). Walt Disney criou, sem sombra de dúvida, uma nova forma de encarar a animação. Juntou música ao cinema e construiu o jeito “Disney” de fazer desenhos animados. Claro que contra seu estilo surgiram outros, o que, a meu ver, apenas enriquece a linguagem, mas não podemos negar que ele tinha visão. Toda garota quis ser uma princesa Disney um dia (Bela é, de longe, a minha favorita, seguida de perto de Jasmim), e seu modo de visualizar os personagens influencia diversas outras versões das histórias, mesmo quando elas têm o intuito de subvertê-las.Vejamos, porém, como o mesmo estúdio se adapta aos novos papéis sociais desempenhados por suas heroínas.

Branca de Neve é meiga, bondosa, e, para nossos padrões, extremamente passiva. É caçada pela madrasta, que tem inveja de sua beleza inigualável, e em momento algum deseja vingança ou recompensa pelos seus bons atos. Casa-se com seu amado e, ao final, vai embora em seu cavalo branco rimo ao castelo, onde terá seu “felizes para sempre”. A madrasta morre enquanto tenta fugir dos anões, seguindo a máxima de que “o mal se destrói por si mesmo”.

"So whistle when you work..."

Claro que devemos pensar no contexto em que o filme foi produzido, bem como as possíveis intenções dos idealizadores. Final da década de 30, a mulher ideal devia dedicar-se à casa, e tudo o mais. E esses valores estão reproduzidos no filme de forma pouco sutil, através de uma Branca de Neve que arruma a casa para anões órfãos, que os manda lavar as mãos antes das refeições, e que se deixa enganar pela sua rival quando esta lhe oferece uma suposta “maçã dos desejos”.

Em contraposição, temos Tiana, uma moradora de Nova Orleans… espera aí, é um cenário real? Um conto de fadas que se passa em uma cidade real, e que faz referências à cultura local, inovando com músicas de jazz e afins? Não é a primeira vez que Disney tenta essa atualização, claro. Encantada (2008) faz isso muito bem, inclusive, subvertendo a linguagem tão específica dos filmes do estúdio, quando o interesse romântico da personagem reclama: “Não, sem cantar de novo! Ei, mas e por que estão todos cantando e dançando com ela?!”. As referências se dão de maneira caricata, não dá para negar, mas… é um começo!

Mencionei que ela é uma princesa negra?

E Tiana, uma moça órfã de pai, sonha em ter seu próprio restaurante. Trabalha três expedientes para juntar o dinheiro e sequer pensa em casamento, concentrada em sua vida profissional. Até aqui, são dois arquétipos bem diferentes sendo representados. A atual, com um espírito mais independente, acredita que qualquer recompensa deve vir do seu trabalho.

A atualização se torna necessária. Afinal, a criança – os filmes se destinam principalmente ao público infantil, não se pode negar – não raramente é filha de mãe solteira, ou filha de mãe que trabalha fora. O arquétipo da dona-de-casa exclusiva não é a regra atualmente, e não convenceria totalmente. Temos aí a necessidade mercadológica, pois o púbico precisa identificar-se com a história contada. E por público, entenda as crianças e os pais das crianças que vão levá-las. E claro, o público que cresceu assistindo os clássicos Disney e que vai continuar assistindo todas as charmosas animações.

Outros filmes – e aqui eu me limito apenas ao cinema, por ser o mesmo campo de comparação que comecei – já fizeram isso. Shrek é um exemplo clássico de paródia aos contos de fada, começando pela princesa que luta kung fu, bem como todas as outras referências às princesas Disney (Branca de Neve sendo levada pelos passarinhos da floresta, por exemplo, foi particularmente engraçado). Mas o importante é notar que mesmo produtoras clássicas (ou politicamente corretas) se deram ao trabalho de realmente adaptar histórias ao seu público. Mais uma vez, reforço a questão do contexto; são 73 anos de diferença, afinal!  E ainda assim, penso ser interessante observar esse tipo de evolução nas representações.

É isso, pessoal! Nada de novos textos por enquanto, mas não pensem que não pretendo voltar. 😉